As transformações políticas, sociais e econômicas por que passa a Europa em fins do século XVIII e começo do séc. XIX, quais sejam a ascendência da classe média e consequente queda da aristocracia e o liberalismo na política, influem na literatura determinando o rompimento com o classicismo, o qual representava os valores estéticos da mentalidade aristocrática e absolutista.
Agora a literatura será mais popular. Tal movimento começou na Alemanha, passando-se para a França e daí para o resto da Europa por obra de Mme. de Stael. Em Portugal o Romantismo chega com a publicação, em 1825, do poema Camões de Garrett. Para o romantismo a arte é a representação subjetiva da realidade. O artista busca inspiração na sua própria terra valorizando-a (o nacionalismo, que coincide com a independência de quase todas as colônias americanas), por isso o romantismo busca os temas da Idade Média, e na América, onde não houve tal época, surge o indianismo. O artista é passivo diante da realidade, tornando-se angustiado, sofredor, refugiando-se então na imaginação. Por isso o romantismo sobreporá o sentimento à razão, o individualismo à universalidade na elaboração da obra de arte. A forma de expressão torna-se livre, há novas criações, como o drama, o romance histórico e a literatura passa a ser quase toda em prosa. O amor geralmente é causa de sofrimento e morte, o “amor de perdição”, a mulher é divinizada, há predomínio do religioso, chegando até a superstição. No fundo da estética romântica e do comportamento do romântico está a concepção rousseauniana do homem naturalmente bom, que se torna mau por influência da sociedade. O romantismo criará homens misantropos, tristes, infelizes, afastados da sociedade e que resultará numa corrente ultrarromântica, dentro do próprio romantismo.![]() |
| Imagem 01 - Acervo: Ludus Schola Alexandre Herculano |
João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
(1799-1854), que, além de obras neoclássicas, escreveu Camões, D. Branca
(poemas narrativos), Folhas Caídas (poesias líricas), Viagens na
Minha Terra, Frei Luís de Sousa (teatro) e outras.
Foi o iniciador do Romantismo em Portugal. Alexandre
Herculano de Carvalho e Araújo (1810-1877), inspirado em Walter Scott, inicia
em Portugal o romance histórico. Obras: A Harpa do Crente (poesias), Lendas
e Narrativas, o Bobo, Monásticon (comprendendo Eurico, o
Presbítero e O Monge de Cister, romance de tese acerca do celibato
clerical), etc. e obras críticas como Portugaliae Monumenta Historica e
outras.
A Cruz mutilada
Amo-te, ó cruz, no vértice firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em préstito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbitério,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemitério;
Amo-te, ó cruz, até, quando no vale
Negrejas triste e só,
Núncia
do crime, a que deveu a terra
Do assassino o pó:
Porém quando mais te amo,
Ó cruz do meu Senhor,
É, se te encontro à tarde,
Antes de o Sol se pôr,
Na clareira da serra,
Que o arvoredo assombra,
Quando à luz que fenece
Se estira a tua sombra,
E o dia últimos raios
Com o luar se mistura,
E o seu hino da tarde
O pinheiral murmura.
E eu te encontrei, num alcantil
agreste,
Meia-quebrada, ó cruz, Sozinha estavas
Ao pôr do Sol, e ao elevar-se a
Lua
Detrás do calvo cerro. A soledade
Não te pode valer contra a mão
ímpia,
Que te feriu sem dó. As linhas
puras
De teu perfil, falhadas,
tortuosas,
O mutilada cruz, falam de um
crime
Sacrílego, brutal e ao ímpio
inútil!
A tua sombra estampa-se no solo,
Como a sombra de antigo
monumento,
Que o tempo quase derrocou,
truncada.
No pedestal musgoso, em que te
ergueram
Nossos avós, eu me assentei. Ao
longe,
Do presbitério rústico mandava
O sino os simples sons pelas
quebradas
Da cordilheira, anunciando o
instante
da Ave-Maria; da oração singela,
Mas solene, mas santa, em que a
voz do homem
Se mistura nos cânticos saudosos,
Que a natureza envia ao céu no
extremo
Raio de sol, passando fugitivo
Na tangente deste orbe, ao qual
trouxeste
Liberdade e progresso, e que te
paga
Com a injúria, e o desprezo, e
que te inveja
Até, na solidão, o esquecimento!
Foi da ciência incrédula o
sectário,
Acaso, ó cruz da serra, o que na
face
Afrontas te gravou com mão
profusa?
Não! Foi o homem do povo, a quem
consolo
Na miséria e na dor constante hás
sido
Por bem dezoito séculos; foi esse
Por cujo amor surgias qual
remorso
Nos sonhos do abastado ou do
tirano,
Bramando
“Esmola” a um, “Piedade” a outro.
Ó cruz! Se desde o Gólgota não foras
Símbolo eterno de uma crença eterna;
Se a nossa fé em ti fosse mentida,
Dos opressores de outrora os livres netos
Por sua ingratidão dignos de opróbrio,
Se não te amassem, ainda assim seriam.
Mas és núncia do céu, e eles te insultam,
Esquecidos das lágrimas perenes
Por trinta gerações, que guarda a campa,
Vertidas a teus pés nos dias torvos
Do seu viver da escravidão! Deslembram-se
De que, se a paz doméstica, a pureza
Do leito conjugal bruta violência
Não vai contaminar; se a filha virgem
Do humilde camponês não é ludíbrio
Do opulento, do nobre, ó cruz, to devem;
Que por ti o cultor de férteis campos
Colhe tranquilo da fadiga o prêmio,
Sem que a voz de um senhor, qual dantes dura
Lhe diga: __ É meu, e és meu! A mim deleites,
Liberdade, abundância; a ti, escravo,
O
trabalho, a miséria, unido à terra,
Que o suor dessa fronte fertiliza,
Enquanto, em dia de furor ou tédio,
Não me apraz com teus restos fecundá-la”.
Quando a calada Humanidade ouvia
Este atroz blasfemar, tu te
elevaste
Lá do Oriente, ó cruz, envolta em
glória,
E bradaste, tremenda, ao forte,
ao rico:
“Mentira!” E o servo alevantou os
olhos,
Onde a esperança cintilava a
medo!
E viu a face do senhor retintas
Em palidez mortal e errar-lhe a
vista,
Trépida, vaga: a cruz, no céu do
Oriente,
Da liberdade anunciara a vida.
(A Harpa do Crente)
Leia também: Particularidades na construção e concordância
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| Imagem 02 - Acervo: Ludus Schola Almeida Garret |
Antonio
Feliciano de Castilho (1800-1875), cego; intransigente na questão da pureza da
língua. Obras: Cartas de Eco a Narciso, Amor e Melancolia (poesias), Ciúmes
do Bardo e A Noite do Castelo (poesias).
Camilo Castelo Branco (1825-1890), o mais fecundo
escritor português. Entre seus inúmeros romances citam-se Amor de Perdição
e Amor de Salvação.
Júlio Diniz (1839-1871), pseudônimo de Joaquim Guilherme
Gomes Coelho, que escreveu romances de motivos campesinos: As Pupilas do
Senhor Reitor, A Morgadinha dos Canaviais, Os Fidalgos da Casa
Mourisca, Uma Família Inglesa (este, um romance citadino).
Rebelo da Silva, que escreveu “A Ultima Corrida de
Touros em Salvaterra”.
Poetas ultrarromânticos são: Antônio Augusto Soares
Passos (1826-1860), em quem aparecem as características do “mal do século”:
pessimismo, desencanto, morbidez e sentimentalismo excessivo. Obras: O
Noivado do Sepulcro, O Firmamento, O Anjo da Humanidade.
João de Lemos (1819-1890), com Lua de Londres.




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