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A Morte - Arcano XIII - Lição de Tarot (Arcanos Maiores): rito de passagem, transmutação alquímica

  


                                                                Mem (Letra Mãe)

MORS

Permanentia in Essentia – Mors et Reincarnatio – Transmutatio Virium


Este é o único arcano que carece de nome[1], e sem dúvida, basta contemplá-lo para saber que nos encontramos diante de uma representação da morte, ao qual a maioria dos humanos a temem, considerando-a como maléfica, sombria e triste.

Há uma lenda egípcia que no início do mundo nada existia. Não existia porque não se conhecia o nome das coisas, e uma vez conhecido o nome das coisas, o pior castigo que podia impor-se era o de destruí-lo.

Entre os judeus, Deus só pode ser conhecido através de sinônimos e atributos, pois, seu nome não se pode pronunciar, pois, não é possível revelar seu verdadeiro rosto e personalidade. Já na China, cada pessoa possui dois nomes, um conhecido por todos e outro secreto, somente conhecido pelos pais para evitar que os diabos ou os males podem se apossar, ou prejudicar seu portador.

Diante disto se desprende que o que não tem nome é como se não existisse, e a morte não existe no sentido absoluto da palavra. Até mesmo Einstein disse certa vez que a morte não era nada mais que o passaporte para outra dimensão, e quando aceitamos o princípio da imortalidade da alma, devemos concluir forçosamente que a morte encerra um ciclo de vida, abrindo nos para acesso a outro ciclo.

A imagem da morte como simbologia cabalística tem evoluído muito através dos tempos, pois, na Antiguidade Clássica, a morte era representada na forma de Thanatos, um garbo jovem irmão gêmeo de Hipnos, o Sonho; mas é com o cristianismo medieval quando começa a surgir como um ser pobre, debilitado, miserável, constituído em cada metade por cadáver e esqueleto, armado com um arco como é representado pelo Tarot de Visconti-Sforza, referindo-se é claro mais ao ofício de defunto do que a representação da própria morte.

Mais adiante, sem precisar quando, que a foice se incorpora ao esqueleto e aparece nas posteriores representações deste arcano, talvez com uma finalidade esotérica ‒ o que carece de fontes ‒ pois, a foice é um atributo dos deuses agrícolas da Antiguidade: Saturno e Ceres; o primeiro usando a foice para podar as vinhas e castrar o gado, do mesmo modo que seu homólogo grego Cronos castrou seu pai Urano; e a segunda para colher e cortar ervas daninhas. É por isso que a partir do século XV a foice passa a simbolizar o corte e a morte; mas também a colheita, com a esperança no renascer.

Enfim ‒ e sem entrar no simbolismo do número 13 ‒ há, no entanto, algumas considerações históricas sobre o mesmo.

Na Antiguidade Clássica, o número 13 era considerado o mais forte e sublime de todos; por isso segundo o filósofo Platão, no Céu é Zeus quem avança o primeiro em seu carro alado seguido pela corte dos outros doze deuses. Inclusive, assegura-se que seguindo o mesmo raciocínio, Jesus Cristo aparece rodeado de doze apóstolos, sendo Ele, é claro, o décimo terceiro, o mais sublime de todos.

Somente com o judaísmo e o cristianismo que passam a deturpar o significado místico e cabalístico do número 13 considerando-o maléfico, considerando o décimo terceiro capítulo do Apocalipse como sendo do Anticristo; na cabala os espíritos do mal também são treze, e no cristianismo o dia da paixão é o décimo terceiro de sua lunação, e muda seu sentido na última ceia dizendo que Jesus perece por ser o décimo terceiro, sem ter em conta que os que morrem são dois e não uno:

Jesus e Judas; enquanto o primeiro ressuscita e ascende à Glória Eterna, o segundo é destinado ao mais profundos dos infernos.

 

Descrição

 

A figura principal consiste num esqueleto portando uma foice separando cabeças, mãos e pés. Ao aparecer totalmente se perfil à direita, indica que se refere a uma transição ou as ações sucessivas, circunstância que refirma ao representar uma ação ‒ a de separar ‒ e estar andando indicando que se trata de um passo em direção do destino.

O esqueleto somente está coberto por uma pele rosa, cor de carne e a sensualidade, para indicar que representa a morte do mais material e aparentemente rígido e sólido de nosso ser, pois, a pele e os ossos se encontram abaixo da regência astrológica de Saturno, sendo o mais material dos planetas; pois não devemos nos esquecer que o é no seu aspecto inferior, enquanto no superior rege o abstrato e absoluto, por isso, é o que mais tende a aprofundar na essência real das coisas. A cor rosada da pele indica que a morte não é total, pois, se conserva um mínimo de vida e sensibilidade.

A mão da foice é amarela para indicar que sua ação é fruto de uma vontade inteligente, e a folha é vermelha para ressaltar o dinamismo de uma ação que arrasa para renovar o ultrapassado, como faz o cortador quando o grão já está maduro e a planta deve então morrer para dar início a uma nova colheita.


Imagem 01 - Acervo: Biblioteca Mística de Motosofia
Arcano A Morte ou o arcano sem nome, representado pelo Tarot de White.


O fundo branco, símbolo de uma ação que tanto pode referir-se a um nascimento (ou renascimento) como a uma extrema velhice (ou final de vida), ou a promessa de uma futura pureza, ocupa as duas terceiras partes da lâmina para ressaltar a importância e a extensão de seu significado, enquanto a outra terceira parte é ocupado pelo chão negro sobre o que possui lugar de ação.

A negrura do chão se refere que a morte corta, coisas mesmo depois de mortas, perecidas e inúteis: cabeças, pés, mãos e ossos, símbolos de pensamentos e vontades, de ações e movimentos: enquanto permite surgir por cima daquilo que já morreu, uma nova vida, novos ideais e uma nova espiritualidade, simbolizados pelas matas de ervas azuis e amarelas.

Por fim, só vemos um pé do esqueleto, o que fica detrás, enquanto quem inicia o passo desaparece de nossa vista, como indicando que neste passo transcendental simbolizado pela morte, sabemos de onde partimos, mas não aonde vamos.


Leia também: O Enforcado ou O Dependurado - Arcano XII - Lição de Tarot (Arcanos Maiores): indica a existência de uma atadura física, psíquica ou espiritual

 

Simbolismo

 

Podemos interpretar o número treze de duas formas distintas: 10 + 3 ou 12 + 1. No primeiro caso representa a totalidade de um ciclo humano prestes a iniciar o seguinte (3), exercendo-se na década, na totalidade do universo que o contém e que, em consequência, o limita. No segundo caso, corresponde a uma ação individual (1), um novo começo que carrega o final de um ciclo completo. Porém, em ambos os casos, 13 = 1 + 3 = 4, e com isso voltamos ao quaternário, à determinação material e corpórea, a realização da ideia.

Dentro do Tarot, é O Mago (1) rompendo o estado latente do Enforcado (12), desligando-se de suas amarras materiais para permitir-lhe iniciar uma nova e definitiva ascensão. Por isso, que constitui como uma ruptura, um anova etapa dentro do Tarot, de tal maneira que – segundo Jean Vassel – dos doze primeiros arcanos se correspondem com os pequenos mistérios da antiguidade, e os seguintes com os grandes mistérios.

 Por isso que A Morte é um arcano da metamorfose, de transmutação alquímica, de rito de passagem, de morte simbólica, ou iniciática, pois, o homem deve morrer para renascer purificado, com uma nova virgindade que lhe permita empreender uma verdadeira evolução espiritual. Mas não devemos esquecer seu caráter ambivalente, pois, se por uma parte é a introdutora ao mundo sonhado do Paraíso, também pode representar o temido Inferno.

 

Significado adivinhatórios geral

 

Indica a uma pessoa que deseja – ou se vê obrigada a – transformar algo em sua vida, tanto pode ser um desejo de autodeterminação, de liberdade, por uma iniciativa que requer profundos sacrifícios e muito valor, ou se trata das consequências de uma morte, de uma renúncia ou de uma iniciação sacerdotal, ou oculta.

Suas interpretações podem ser muito variadas dependendo das cartas acompanhantes, mas sempre indica uma transformação radical, uma prova, uma ruptura, uma separação ou uma morte, entendida esta última como o fim de algo, já que seja de uma situação, de um projeto, de uma ideia ou de uma pessoa.

Assim, por exemplo, acompanhada da Roda da Fortuna anuncia uma herança, enquanto ao lado do Diabo indica ruína; junto ao As ou o cinco de Espadas uma morte, seguramente violenta ou repentina; junto ao nove de Espadas, tanto pode indicar uma importante mudança de vida relacionado com um sacramento ou uma cerimônia solene, como o ingresso em uma ordem religiosa, um matrimônio (com o Rei de Copas), um batizado (com o Rei de Paus), ou inclusive um funeral (com o cinco de Espadas).

Invertida, o significado é parecido, mas se a vontade e a iniciativa pessoal da lei possuem sua importância, e a mudança, a separação, a transformação ou o fim de algo é resultado da ação do consultante, invertida se sofrem as consequências sem poder fazer nada para evitá-las.

Seguindo com os exemplos anteriores, o matrimônio estaria forçado pelas circunstâncias ou por outras pessoas.

 

Significados Adivinhatórios Concretos

 

Saúde – Em termos de saúde, sempre indica enfermidade, e no caso que haja exista, se produzirá uma crise ou uma intervenção cirúrgica cujas consequências serão para o bem, ou para o mau segundo as circunstâncias do caso.

Invertida, o prognóstico é o mesmo, mas com maior gravidade, e muitas vezes anuncia quedas ou acidentes acompanhados de fraturas que exigirão cirurgia. Acompanhada de outras cartas maléficas podem indicar inclusive a morte física[2].

Mentalidade – Se produz uma renovação, total ou parcial, das ideias a causa de uma intervenção externa que atuará de catalisador ou a repreensão de muitos conceitos até agora aceitados como válidos. Algumas vezes podem indicar o início de uma tarefa de investigação acerca de temas ocultos ou transcendentes; outras se refere ao florescimento da superfície de problemas psíquicos que permaneciam no subconsciente, permitindo eliminar algum complexo ou bloqueio, já que seja mental ou psíquico; e por último, no estudante pode limitar-se numa mudança de carreira ou de centro de estudos.

Em todos os casos, o processo pode ser mais ou menos doloroso no princípio, mas logo resultará positivo.

Invertida, segue existindo a necessidade de mudança, e talvez isso acabe acontecendo, mas é incompleto e não produz o resultado esperado, ou se fracassa o estudo empreendido; no caso de um processo psíquico talvez se agravam as coisas, finalizando muitas vezes em problemas psíquicos e mentais, sempre para uma crise de pessimismo e melancolia.

Sentimentos – Também aqui são de esperar rupturas e distanciamentos; sugere o fim de um amor, de uma relação, de uma mudança de sentimentos. São aqueles momentos em que se impõe uma limpeza sentimental em profundidade, no qual os desejos, emoções e laços sentimentos serão revisados, reorganizados e inclusive até mesmo transcendido, se necessário.

Invertida incrementa seus efeitos negativos: as rupturas são muito dolorosas e às vezes é consequência de um fracasso sentimental, quando a pessoa amada nos abandona ou se rompe definitivamente o pedestal em que a havíamos colocado.

Família – Tanto pode indicar uma ruptura familiar, uma crise de ordem estabelecido dentro da mesma, como um afastamento, sejamos por parte de nós mesmos, ou seja, por parte de outro membro do seio familiar para entrar numa ordem religiosa ou iniciática.

Invertida, a ruptura é mais dolorosa, e às vezes se trata de uma morte familiar.

Amizades – Igual acontece com a família e os sentimentos, sempre indica uma ruptura, a perda de uma amizade, quando não há uma renovação total de amizades e inclusive até mesmo no ambiente imediato. Em alguns casos podem tratar-se simplesmente de renunciar uma amizade que acreditávamos estar perdida desde muitos anos.

Trabalho – Sempre existe uma mudança de trabalho ou ao menos uma mudança dentro do mesmo, já que seja de conteúdo ou transferido para outro departamento. Geralmente a mudança vem para melhorar, mas apesar disso as mudanças sempre resultam em traumática.

Quando se refere a profissionais segue indicando que sua finalidade última é a morte ou a transformação; assim, por exemplo, pode tratar-se de trabalho em uma empresa de pompas fúnebres, em uma fábrica de transformação de matérias-primas em produtos elaborados ou inclusive em uma planta de energia atômica.

Invertida, é um trabalho mal executado que acarreta perdas, que inclusive podem chegar a atingir o emprego; outras vezes pode ser um negócio perdido, a ruína ou uma empresa que vai à ruína sem causas imprevisíveis, uma revolução, um atentado ou uma catástrofe natural.

Dinheiro – sempre existe uma mudança de fortuna, bem ou mal segundo as cartas que acompanham a tiragem; tanto pode tratar-se de uma herança, ou mesmo tende a ser a devolução de um cheque, o bloqueio de uma conta bancária.

 

Meditação sobre este Arcano

 

Ao estudar o simbolismo deste arcano dizemos que o grão maduro deve ser sepultado na terra para morrer como tal e metamorfosear-se dando origem a uma nova planta, e também o homem deve morrer na Terra para renascer purificado a uma vida superior.

Por isso, nos aponta Wirth – e depois dele todos os estudiosos do Tarot – assim como Saturno poda a árvore-da-vida para intensificar o poder de sua seiva, A Morte cega a humanidade para favorecer sua persistência e fecundidade; é por isso que o iniciado reconhece na Morte o indispensável agente do verdadeiro progresso e não a teme, e o sábio se encaminha para a tumba feliz de liberar-se das ataduras que retém seu espírito atado à matéria.


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A Morte não é um final definitivo, é senão a porta de entrada ao reino do espírito, o acesso à vida verdadeira; esotericamente, é a morte do estado de imperfeição, a profunda mudança interior que se sofre com a iniciação e sem a qual é impossível todo o progresso iniciático.

 Tudo isso é certo, mas existe um ponto que convém deixar claro ainda quando se trata de uma questão secundária e referida ao simbolismo astrológico.

Na mitologia se identifica com Saturno romano com o Cronos grego, o qual somente é certo até um certo ponto, pois, em sua origem, Saturno é o herói civilizador que ensina o cultivo da terra, enquanto Cronos era o tempo que tudo consome e devora. Astrologicamente, Saturno encarna o princípio de concentração, de abstração e de inércia; a força que tem a cristalizar, a fixar-se rigidamente tudo no existente. Por isso, em seu aspecto superior confere uma grande profundidade, constância, perseverança no esforço, fidelidade, castidade, ciência e religião.

Ao contrário, podemos aferir que Thanatos, a Morte, era irmão de Hipnos, o Sonho, ambos irmãos jovens filhos da Noite e habitantes do Tártaro, domínio de Plutão, o senhor das profundezas e das forças ocultas.


Imagem 02 - Acervo: Biblioteca Mística de Motosofia
A Morte, representado pelo Tarot das Bruxas.


Embora tenha havido mudança na iconografia transformando-se num formoso e garboso jovem Thanatos na esquelética morte com a foice saturnina, a verdadeira correspondência astrológica da Morte não é com Saturno, senão com Plutão, ou melhor dizendo, com Escorpião, sua morada, signo de Água, sexo, morte e transformação, em conformidade por sua vez com a VIII casa, a da morte e mais além, é a ligação ou dobradiça entre o mundo terreno e aquele outro, temido e desconhecido, que existe mais além da morte; e com o mundo do inconsciente, também temido e ignorado, donde residem e se agacham em temores, frustrações e desejos reprimidos.

Enquanto as correspondências cabalísticas, não resta menor dúvida que faz correspondência com o décimo quarto sendeiro.

 



[1] Considerado o arcano sem nome. Uma vasta investigação descobriu que o arcano A Morte é representado nos hieroglíficos do Antigo Egito por uma mulher. Conforme a concluiu as investigações de Motosofia, isto quer dizer que a mulher é o símbolo da vida e da morte. É através dela que ocorre a morte, pois, também é por meio dela que ocorre o fenômeno da existência, dando origem à vida. Consiste em alegar que a morte é o estágio final do princípio feminino, ao qual a mesma é a ponte de separação do ciclo cármico para dar início a uma nova era ou a aquisição de outro figurino e o cenário de outra etapa da vida se ergue, formando a nova realidade e palco da existência donde vai estar condicionado pela fração espaço-tempo o novo ser (matéria e espírito) no interminável processo de evolução e transformação.

[2] Nesse sentido é entendido como parcial o anúncio de morte física, sendo apenas uma remota possibilidade, visto que a morte está mais voltada para o aspecto da transformação, segundo as concepções de Motosofia. Uma vez acompanhada por outras cartas, como A Torre e o dez de Espadas podem ser muito maléficas e perigosas quanto aos cuidados à saúde. O conselho místico e filosófico do Tarot, neste sentido, é apenas orientar o consulente sobre os possíveis danos. A busca pelo Tarot para saber ou mesmo predizer a morte de inimigos, rivais, amantes, entre outros, não pode ser clarificada de forma nenhuma, pois, não cabe ao consulente saber sobre sua própria morte nem mesmo dos outros, porque somente Deus tem esse poder, de dar a morte aos seres em evolução. Quanto aos tarólogos e cartomantes que afirmam revelar tais previsões em suas consultas, esmaga a ética profissional, se esgueirando por caminhos obscuros que distanciam do verdadeiro propósito do Tarot, tornando-se assim um espetáculo abstrato de charlatanismo e fraude.


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