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Particularidades na construção e concordância


Nem sempre os períodos se constroem da maneira normal pela qual deviam construir-se. Nem sempre os termos se colocam dentro das orações na ordem em que normalmente deveriam vir. Conforme o estado emocional ou a intenção de quem escreve, a construção dos períodos, a colocação e mesmo a concordância dos termos sofrem mutações que geram as figuras de sintaxe.

Dentre as figuras de sintaxe de construção, destacamos:


A ELIPSE 

É a omissão de um termo que o contexto ou a situação permitem facilmente subentender. Acontece com o sujeito (Ele chegou de mansinho, abriu a porta e entrou); com o verbo (Na rua, o silêncio; dentro de casa, o alegre conversar das pessoas); da integrante “que” (Peço-lhe me envie quinhentos cruzeiros).


A ZEUGMA 

É uma espécie de elipse, pela qual se omite na oração um termo (geralmente o verbo) já expresso em oração anterior: Você fica aqui; você ali (Você fica aqui; você fica ali).


O PLEONASMO 

É a repetição da mesma ideia por palavras diferentes: Vi com meus próprios olhos a desgraça que aconteceu:

O pleonasmo é vicioso quando decorrente da ignorância do sentido exato dos termos usados: ter o monopólio exclusivo, ser o principal protagonista, onde monopólio já contém a ideia de exclusividade e protagonista o de principal.

É válido como recurso estilístico quando traz nova força à expressão. Aliás, a elipse, a zeugma são reais recursos estilísticos, pois colaboram com a concisão e precisão do que se escreve.

 

Créditos da Imagem: Canva 



ANACOLUTO 

Indica a figura na qual um termo vem solto, sem ligação sintática com os outros termos da oração: A terra em que tu morreres, nessa morrerei. Os três reis orientais, que vieram adorar o Filho de Deus recém-nascido em Belém, é tradição da Igreja que um era preto.

  

ASSÍNDETO E POLISSÍNDETO 

Assíndeto é o encadeamento de palavras de uma oração ou orações de um período sem uso de conjunção coordenativa:

O mar enfurecia-se, as ondas agigantavam-se, as nuvens jorravam borbotões de água.

Polissíndeto: os elementos coordenados se ligam por conjunção coordenativa, “e”. Exemplo:

“E olhava-me, e vinha e ia, e tornava a latir...” (S. Lopes Neto).

Dentre as figuras de sintaxe de colocação, destacamos:


HIPÉRBATO 

É a inversão da ordem normal das palavras na oração ou das orações no período:

Dinheiro não tenho.

A anástrofe é um tipo de hipérbato pelo qual se antepõe o determinante (preposição substantivo) ao determinado:

Vingai a pátria ou valentes.

“Da pátria tombai no chão”. (F. Varela).

A sínquise é a inversão de tal forma violenta que o sentido fica difícil de ser percebido. Exemplo:

A grita se levanta ao céu, da gente (a grita da gente).

Tais figuras para obterem o resultado expressivo desejado têm de ser cuidadosamente elaboradas, caso contrário tornam-se viciosas por prejudicarem o sentido dos enunciados.

 

A SILEPSE 

É a figura de concordância. É a concordância que se faz não com a palavra mas com a ideia que esta representa. Pode ser Silepse de número:

1. É a concordância que se faz com um substantivo singular concebido como plural, particularmente, com os coletivos:

E o povo impaciente esperava o orador. De repente começaram a aplaudir...

2. Os adjetivos e particípios no singular quando referentes a “nós, vós” aplicados a uma só pessoa:

Estamos persuadido de que... É preciso que estejais atento...

 

Silepse de gênero: 

Vão para o masculino os adjetivos que se referem aos pronomes de tratamento “Vossa Excia., Vossa Majestade, Vossa Eminência etc., quando, é claro, tais pronomes se referem a homens:

Vossa Excelência deve estar aborrecido. Vossa Majestade pode ficar satisfeito.

O mesmo se dá com “a gente” referindo-se a homem:

A gente está apressado (homem) ou A gente está apressada (mulher).

 

Crédito da Imagem: Canva





Silepse de pessoa:

1. O verbo pode ir para a 1.ª pessoa do plural quando a pessoa que fala ou escreve se inclui num sujeito enunciado na 3.ª pessoa do plural:

E os noventa milhões de brasileiros torcemos pela vitória do Brasil.

2. O verbo pode ir para a 2.ª pessoa do plural quando queremos abranger a pessoa a quem nos dirigimos, dentro dum sujeito enunciado em 3.ª pessoa:

Os dois sois um par perfeito.

 

A COLOCAÇÃO DOS PRONOMES OBLÍQUOS ÁTONOS


No que tange à colocação das palavras dentro duma oração, é preciso atentar de maneira especial à colocação dos pronomes oblíquos átonos.

A ênclise é posposição do pronome ao verbo. Deve ser usada sempre que uma outra regra de colocação não exige o pronome antes ou no meio do verbo.

A próclise é a anteposição do pronome ao verbo e deve ser usada quando antes do verbo vierem negações (advérbios, indefinidos de sentido negativo etc.), advérbios em geral, certas conjunções coordenativas aditivas, alternativas, todas as conjunções subordinativas, os pronomes relativos, os pronomes indefinidos e as orações optativas. Exemplo:

Ele não me disse nada. Alguém lhe contará o que aconteceu. Ou você se emenda ou recebe castigo. Sempre fiz aquilo que me dava na cabeça. Quando eu a vi pela primeira vez... Bons olhos o vejam.

Quando o verbo está no futuro do presente e no futuro do pretérito e não há antes dele nenhuma palavra que exija a próclise, dá-se a mesóclise, ou seja, o pronome fica no meio do verbo entre o radical e a terminação de futuro:

Enviar-lhe-ei o dinheiro amanhã. Ele revelar-nos-ia o segredo...

Observações: prefere-se a ênclise quando o verbo está no infinitivo. 

Exemplo: Isto é para mostrar-lhe que...

Prefere-se a ênclise quando o verbo inicia um período:

Deixou-se matar sem reagir.

Também com imperativos é a ênclise a colocação preferível:

Dê-lhe o recado. Fale-me amanhã.

Estando o verbo principal no particípio o pronome virá enclítico ou proclítico ao verbo auxiliar:

Tenho-o procurado por aí.

Espero que lhe tenha dado o recado.


Crédito da Imagem: Canva


 

DISCURSO DIRETO, DISCURSO INDIRETO, DISCURSO INDIRETO LIVRE


Há três maneiras de o narrador relatar a fala de seus personagens:

O discurso direto que apresenta a fala tal qual como saiu da boca do personagem e é introduzido, muitas vezes, por verbos como “dizer, afirmar, ponderar, deliberar, perguntar, etc.”, com o travessão:

E Maneco dizia:

__ Quando por aqui não tinha gente.

O discurso indireto que apresenta a fala do personagem transcrita do modo como quem está narrando, sendo introduzido pelas integrantes “que” ou “se” ou ainda por orações subordinadas substantivas reduzidas:

Contou-me que não voltaria mais aqui.

Disse não sentir o mínimo amor por ela.

O discurso indireto livre que, sem usar de termos introdutórios, aproxima narrador e personagem, dando-nos a impressão de que passam a falar em uníssono: “João Fanhoso fechou os olhos, mal-humorado.”

A sola dos pés doía, doía. Calo miserável! (M. Palmério).

 

ESTILÍSTICA

É o estudo das várias maneiras especiais de exprimir o pensamento.

Estilo é a maneira particular que alguém tem de exprimir pensamentos, quer falando, quer escrevendo.

Concorrem para a expressividade do estilo a:

1. Correção: a aplicação correta da norma linguística no uso da língua.

2. Clareza: pela qual quem escreve deve fazer-se entender com relativa facilidade.

3. Precisão, propriedade: é o emprego oportuno de palavras e expressões que se ajustem às ideias.

Eis um exemplo de precisão e propriedade no uso de vocábulos:

“Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas tosca, bruta, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço, e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição até à mais miúda: ondeia-lhe os cabelos; alisa-lhe a testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a boca; avulta-lhe as faces; torneia-lhe o pescoço; estende-lhe os braços; espalma-lhe as mãos; divide-lhe os dedos; lança-lhe os vestidos: aqui desprega, ali arruga; acolá recama: e fica um homem perfeito e talvez um santo, que se pode pôr no altar".

(Vieira, Sermões)


4. Harmonia: é o emprego das palavras com sons variados, distribuição proporcional dos acentos tônicos, o que produz um ritmo agradável.

Contra tais virtudes estilísticas vão:

1. Solecismo: que consiste em erros de norma linguística, como por exemplo o verbo no singular quando o sujeito está no plural, etc.

2. Ambiguidade ou anfibologia: pela qual não se entende bem o que o autor quis dizer:

Ele prendeu o ladrão em sua casa (na casa de quem?)

3. Cacofonia ou cacófato, pela qual unem-se duas palavras, cujo final forma com o início da outra uma palavra de sentido torpe, obsceno ou ridículo: Já que tinha, já que tão; Ela trina; vez passada.

4. Hiato: é a afluência seguida de vogais acentuadas:

Lá há almas.

5. Eco: repetição desagradável de fonemas iguais:

“Clemente sente constantemente dores de dente”.

6. Colisão: desagradável repetição de consonâncias iguais ou semelhantes:

Só se salva o santo;

O sol se sepulta.

Os quatro últimos vícios de estilo vão contra a virtude da harmonia.

Concorrem para a expressividade e beleza do estilo as chamadas figuras de estilo, que são:

1. Metáfora: é o emprego de uma palavra em lugar de outra por semelhança real ou imaginaria. Exemplo:

A embriaguez da glória.




2. Metonímia: designação de uma coisa pela outra, pela sua ligação íntima, como causa e efeito, por exemplo:

Leio Alencar (isto é, os livros-efeito-de Alencar-causa).

Outras ligações que uma palavra pode ter com outra: o abstrato pelo concreto; o símbolo pela coisa simbolizada (O altar (os sacerdotes) e a farda (o exército) uniram-se em defesa da pátria); o lugar pelo produto e vice-versa (beber um Porto, isto é, um vinho da cidade do Porto); possuidor pela coisa possuída (Milhares de fuzis invadiram a cidade, ou seja, soldados com fuzis).

Uma espécie de metonímia é a sinédoque, pela qual empregamos o mais pelo menos, o todo pela parte e vice-versa: vela (embarcação a vela); asas (aviões).

3. Hipérbole: a expressão exagerada de uma coisa, além do real. Exemplo: Mais escuro que a própria noite.

4. Eufemismo: abrandamento de uma ideia, de uma palavra dura, desagradável. Exemplo:

Passar desta para melhor (morrer);

Isto foi uma infelicidade sua, isto é, uma tolice, uma burrice.

5. Prosopopeia ou personificação: é atribuir vida, ação, voz a seres inanimados, mortos ou ausentes. Exemplo:

O fogo avançava, devorando tudo.

A catarata despenca rochedo abaixo.

6. Onomatopéia: imitação pelo som da palavra daquilo que se quer expressar. Exemplo: tchimbum (algo caindo n’água);

“Ringe, range, rouquenha, a rígida moenda, E ringendo e rangendo, a cana a triturar” (Da Costa e Silva).


Há outras tantas figuras de estilo, que se pode conhecer consultando um livro ou manual de estilística.


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