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O Enforcado ou O Dependurado - Arcano XII - Lição de Tarot (Arcanos Maiores): indica a existência de uma atadura física, psíquica ou espiritual

 


Segunda Fase

VIA ÚMIDA

Iniciação Lunar

Caminho místico

“Luta do homem contra si mesmo”

IV º

Caminhos da Dor

Lamed (Libra)

SACRIFICIUM

Messia – Caritas – Zodiacus

 

O mito fundamental do jovem deus solar morrendo e voltando a renascer, igual uma semente que deve baixar à terra para voltar a nascer na próxima primavera, é comum a todos os povos da antiguidade clássica: o egípcio Osíris; o nórdico Odin; o caldeu Dumuzi; o fenício Adônis; o grego Dionísio e inclusive o mesmo Cristo crucificado para redimir os pecados dos homens.

Podemos resumi-lo no deus Dionísio (Baco entre os antigos romanos), filho de Júpiter e Perséfone, despedaçado e comido pelos tiranos, mas cujo coração é resgatado por Apolo e entregado a Júpiter, quem o faz renascer sob a forma imortal de Zagreus para reinar soberano ao lado de seu pai.


Imagem 01 - Acervo: Biblioteca Mística de Motosofia
Arcano Maior O Enforcado ou O Dependurado pelo Tarot de White.


Na Grécia, as imagens de Dionísio costumavam ser penduradas nas árvores para garantir a fertilidade das vidas e das colheitas, sendo que este costume prevaleceu em muitas partes da Europa, enquanto até pouco tempo em alguns povoados saxões se mantinha a tradição de dependurar uma imagem de “jack”, que logo se apedrejava ou incendiava.

Que o deus solar seja assassinado para que o sacrifício regenere a fertilidade das colheitas, ou ofereça sua própria vida na busca pela sabedoria oculta, simboliza o conceito básico do sacrifício do mundano e perecível para alcançar o espiritual e imperecível.

Contudo, como reconhece Rijnberk, em nenhum lugar da antiguidade clássica encontramos a imagem do homem amarrado por um pé, apesar de já praticar esta tortura na época dos romanos, e aparece pela primeira vez em uma gravura dos fins do século XV, no Mittelalterliches Hausbuch, na qual a outra perna pende fracamente como no Tarot de Carlos VI. Porém, este enforcado não é uma imagem de Dionísio, mas sim de Judas, se levamos em conta as bolsas de dinheiro que suas mãos sustentam.

Constitui-se na crença pela representação com as pernas cruzadas e as mãos atadas pelas costas é uma alegoria de um símbolo da Grande Obra, da transmutação alquímica, que o anônimo autor das primeiras lâminas supôs transformar-se na imagem do Enforcado.

 

Descrição

 

 A posição do Enforcado, única em todo o Tarot, simboliza uma atitude latente, na qual a decisão final está fora de seu alcance, pois, por aparecer totalmente de frente, indica a existência de uma ação direta que neste caso concreto só pode ser interior; mas, é a lâmina do Tarot com maior extensão da cor verde, o que equivale dizer que é a mais fecunda de todas.

Em efeito, O Enforcado se encontra suspendido de um tronco verde apoiado sobre duas árvores amarelas que nascem de espessas matas de grossos tufos de grama verde e cada um dos quais pode ser seis ramos cortados na seção vermelha. Isso nos indica que as duas árvores refletem a sabedoria das leis naturais baseada em sua própria fecundidade e cujo ciclo completo se compõe de doces etapas praticamente equivalentes seis a seis, cuja finalidade é tão energética e dinâmica como podem ser as dozes etapas simbolizadas pelos doze signos zodiacais ou os doze meses do ano.

Também é verde o tronco do qual se encontra suspendido, indicando a fecundidade de seu sacrifício, mas não podemos saber se é forçado ou voluntário, pois, a corda branca fixada num ponto amarelo, não parece atar, senão sustentar unicamente o pé do Enforcado, como se sua posição indicativa de sacrifício se sustentasse na parte inteligente da fecundidade superior, e o fosse por um vínculo imaterial e intemporal; isto é, por algo superior e síntese ao mesmo tempo, da ação propriamente dita.

O Enforcado aparece vestido com uma jaqueta azul de mangas curtas vermelhas e saias amarelas, e abaixo, as meias vermelhas são continuadas com meias azuis. Vamos analisar essas roupas.

A jaqueta azul cobre o peito, parte espiritual de sua personalidade, e por sua cor destaca-se a espiritualidade enquanto as saias amarelas que cobrem a parte instintiva e material nos indicam que esta parte está totalmente controlada por sua inteligência, o que acentua o cinturão, símbolo do domínio sobre as tais tendências inferiores.

A gola da jaqueta é branca e as saias estão ornados com nove botões brancos sobre uma zona também branca; sendo o nove o número das coisas absolutas e o branco a cor da pureza, é fácil deduzir que a ação simbolizada pelo Enforcado se constitui numa pureza absoluta, o que reafirma pela aparição de um dos bolsos totalmente inoperantes, e as mãos, parte executiva das operações da mente e da personalidade, escondidas detrás do corpo, indicando a falta de interesse material e a decisão de submeter-se passivamente ao seu destino.

Contudo, a pureza absoluta da ação simbolizada pelos noves botões, é, na verdade, a soma de seis (os botões da jaqueta azul) e três (das saias), para indicar que é uma criação (6) espiritual gerada (3) na mente.

Também cabe destacar o domínio do espiritual de início ao fim, pois, inclusive a parte mais matéria e passional, simbolizada pelas meias vermelhas, finaliza no azul das meias; enquanto que os cabelos azuis totalmente desgrenhados aponta uma poderosa força de vontade que se irradia espiritualmente.

Enfim, a figura do Enforcado lembra as crisálidas de certas mariposas sujeitas a um suporte por finos fios de prata, enquanto em seu interior cede lugar à maravilhosa transmutação da lagarta em mariposa.


Leia também: A Força - Arcano XI - Lição de Tarot (Arcanos Maiores): aponta para uma atitude passiva, mas com mando e domínio


 Simbolismo

 

Poucos números possuem um simbolismo tão rico como o numeral 12, tanto no mundo antigo como no cristianismo. Sempre foi costume considerar que o número 12 é o produto dos quatro pontos cardeais pelos três planos do mundo, com o qual se divide a esfera celeste em doze setores, os doze signos do zodíaco, origem no que lhe concerne dos doze meses do ano; mas é também a multiplicação dos quatro elementos ‒ Fogo, Terra, Ar e Água ‒ pelos três princípios da Alquimia ‒ enxofre, sal e mercúrio ‒, ou, como alega Allendy, os quatro elementos considerados cada um deles em suas diversas manifestações cósmicas e segundo um ponto de vista, pode representar as três gunas dos hindus: atividade, inércia e harmonia. É por estas considerações que se considera exclusivamente o número 12 como o número do desenvolvimento cíclico espaço-tempo do universo, do cumprimento de um ciclo completo.

Para o simbolismo cristão é talvez ainda mais expressivo. Por reportar aos três da trindade e ao quatro à criação, equivalendo sua multiplicação ao cumprimento da criação terrestre por sua assunção para o não criado divino. Mas também representa o número da eleição, o da Igreja triunfante, o dos doze apóstolos; e 144 (12 x 12) é o número das facetas de esmeralda caída de frente de Lúcifer que, esculpida por anjos, recebeu o sangue de Cristo, fonte da imortalidade. E por fim, equivale à passividade humana (2) diante da atividade (1) do Absoluto.

Podemos resumir agora o simbolismo do número e da lâmina, alegando que O Enforcado simboliza o homem que se sacrifica por seus ideais, sabendo que outros virão atrás dele para os buscar e se frutificarão em seu momento; é O Mago que ao fim e um ciclo, considerando cumprida sua missão terrestre, inverte seus objetivos e se direciona para o espiritual resumido num sentimento de espera e de abnegada renúncia.

 

Significado Adivinhatório Geral

 

Sempre indica a existência de uma atadura, de suma sujeição, física, psíquica ou espiritual, que comporta um sacrifício, uma dor, uma renúncia em favor de um fim que se considera superior, ou um estado de impotência momentânea, de inação.

No plano espiritual pode referir-se a uma renúncia ao mundo em prol do sacerdócio ou do misticismo, à plena assunção de um sacramento, com todas as renúncias que comporta, ou inclusive a uma iniciação esotérica; no plano psíquico, se refere a uma dolorosa introspecção, ao descenso a subconsciência em busca de uma ampla e extensiva expansão da própria consciência, de uma superação dos limites do Eu; no plano físico é a sujeição voluntária ou forçada às normas, ou condições de vida que implicam no abandono, ou no sacrifício de uma posição, de uma liberdade ou de alguns bens, em prol de conseguir um futuro melhor.

Como é comum, são as cartas que acompanham que definem a causa e as consequências, assim, por exemplo, se cai junto do Diabo, aponta senão um engano, uma traição ou um adultério; junto do Ermitão, aponta para a solidão, marginalização e inatividade ocasionadas pela perda de um emprego ou uma posição; com A Lua, representa a possibilidade de uma hospitalização; com A Torre uma reclusão voluntária ou forçada; junto do Louco, representa a dependência de drogas ou um voo, etc.

Se O Enforcado aparece em sua posição normal, o resultado final será sempre bom, ou no pior dos casos, com as piores cartas que acompanham, após o dano resultará numa posterior melhoria; é a hospitalização necessária para recuperar a saúde, ou a reclusão voluntária.

Quando aparece invertido, o resultado final nem sempre é favorável ou a situação se produziu contra a vontade do consulente, ao menos que a lâmina esteja acompanhada de cartas favoráveis e benéficas; para seguir com os exemplos anteriores, seria a hospitalização necessária por agravamento de uma enfermidade, ou uma reclusão forçada.


 Significado Adivinhatórios Concretos

 

Saúde – É deficiente sem ser caso de preocupação, mas geralmente refere-se a um período de convalescença necessário para a recuperação da saúde. Também pode indicar uma gravidez, diminuindo a atividade física que aguenta.

Invertida indica um estado ao qual se predomina a falta de vigor, causa de moléstias indefinidas e de difícil diagnóstico, de pessimismo ou depressão; a necessidade de uma hospitalização, pelo menos para repouso absoluto. Também adverte para o perigo do uso abusivo de drogas.

Mentalidade – Implica uma situação que exige meditação à priori e analisada cuidadosamente antes de tomar qualquer tipo de decisão, o que reduz numa passividade momentânea, portanto, frutífera. Também pode indicar o período de reflexão, estudo e amadurecimento necessário antes de empreender numa tarefa importante; quando se trata de pessoas, aponta para a reflexão sobre as próprias lembranças e o início para escrever suas memórias.

Invertida, a passividade e as hesitações são, portanto, maiores, sendo que ao fim não se resolve nada, resultando em perda de tempo, energias e oportunidades. O perigo de enganar-se sempre está presente.

Sentimentos – Sempre aponta um período crítico no qual terá que se render a renúncias ou sacrifícios em prol de um sentimento elevado e desinteressado, isto seja direcionado tanto para pessoas, quanto a um ideal ou a uma vocação espiritual.

Invertida, a situação é semelhante, mas falta o espírito de sacrifício ou este se resulta em algo inútil; é muito frequente nos amores não correspondidos, no despertar de falsos misticismos, mediunidades perigosas, possessões tendendo à destruição da personalidade, ocasionando a queda para um emaranhado ou rede de um falso amor que pode trazer a ruína física e moralmente.

Família – A situação familiar é instável, fluída, não existe um verdadeiro entendimento com os membros familiares e é o momento de pensar seriamente qual o caminho a seguir; de meditar com responsabilidade se há que mudar a própria conduta visando o melhor entendimento; se é necessário sacrificar algum privilégio ou liberdade; sendo uma pessoa solteira, deve-se renunciar às comodidades e vantagens do lar paterno para fundar outro lar.

Invertida, a situação é semelhante, mas sobra egoísmo e falta de sentido prático e o espírito de sacrifício necessário para entregar-se à mudança, para tomar verdadeiras responsabilidades.

Amizades – Embora muitas vezes não se reconheça, existe um verdadeiro sentido da amizade, não importando os sacrifícios que devem fazer para conservar e ajudar os amigos que solicitam auxílio; contudo, no fundo, muitas vezes se abate a solidão e o sentimento de estar só.

Invertida, no que afere as verdadeiras amizades não existem; falta comunicação com as mesmas, causando muitos desencontros e desenganos.

Trabalho – Consiste numa situação difícil, pode ser a espera diante da troca de um emprego ou a perda do qual já se tem; nos negócios há pouco o que prosperar, sendo necessário meditar e encontrar qual o melhor caminho para alcançá-los, ou também será necessário abandoná-los e iniciar outros projetos realmente produtivos.

Profissionalmente não é uma boa carta, carecendo da falta de sentido prático, e somente é favorável aos psicólogos, sacerdotes, profetas, artistas, aos místicos e sonhadores, em geral.

Invertida, consiste na falta de sentido prático, de decisão, o viver nas nuvens, é a causa do fracasso profissional; é o artista incapaz de plasmar nas obras que o satisfaça, são os projetos irrealizáveis, os negócios utópicos.

Dinheiro – Não é que falte, é que se pensa pouco no mesmo e é excessivamente desinteressado.

Invertida, significa perdas à custa de enganos, golpes e falta de sentido prático em seu manejo.

 

Meditação sobre este Arcano

 

Há um ditado muito antigo que quando a alma penetra no ventre da que deve ser sua mãe, o faz amparada por dois anjos que a vigiam impedindo de sair, uma vez que a alma não gosta de reencarnar-se. O Enforcado, nesse sentido, se assemelha a um feto, que se situa der cabeça para baixo no ventre da mãe, sendo que os dois anjos guardiões podem ser representados pelas duas árvores laterais, e tanto o feto como O Enforcado se encontram numa situação intermediária entre dois mundos sem poder decidir por si mesmo a qual deles permanecerão definitivamente.

Nos significados gerais dizemos que a influência de um arcano se expressa nos sete planos do ser, mas em prol da simplificação, é reduzido a três sua manifestação prática; pois, O Enforcado se encontra em dois mundos, o mundo material e o mundo espiritual, como se gravitasse entre duas forças de atração esperando algo que lhe permita superar o equilíbrio e decidir-se por algum deles, que tende a ser uma benção e um martírio.

Aparecendo O Enforcado depois do arcano A Força, não resta a menor dúvida que o primeiro arcano é a resultante deste último; é a situação que se encontra quando duas forças contrapostas do individual e do universal estão equilibradas, e é quando a vontade aplicada à consecução da pureza moral e espiritual deve entrar em ação para dar início a Grande Obra alquímica de sua transformação interior, inclinando-se para a aparente escravidão das paixões materiais.


Imagem 02 - Acervo: Biblioteca Mística de Motosofia
O Enforcado ou O Dependurado segundo a visão do Tarot das Bruxas.


Porque a lição deste arcano é que na realidade todos os homens são escravos de alguma coisa; conquanto, todos somos escravos de uma necessidade imperiosa, que age como uma droga que nos aprisiona, podendo se tratar de um ideal, de uma paixão, de um dever, do juízo dos demais, por isso, é importante saber conservar a verdadeira liberdade, que é, antes de tudo, a escolha primeira de qual dever ser nossa servidão, e depois, realizada nossa transmutação interior, ser verdadeiramente livres de coração e cérebro, pois, para adentrar aos Santuários dos Eleitos e ser um verdadeiro iniciado, um verdadeiro mago, é necessário se livrar da escravidão simbolizada pelo Enforcado, ainda quando seja com o supremo sacrifício, o da morte iniciática representada pelo arcano seguinte.


A Roda da Fortuna - Arcano X - Lição de Tarot (Arcanos Maiores): fecha um ciclo para iniciar outro, é o fim e o princípio


Astrologicamente, O Enforcado se corresponde com Netuno, o planeta do imaterial e incorpóreo, do amor feito de renúncia e sacrifício, mas por sua vez, mundo irreal e sonho cujo aspecto mais inferior culmina na escravidão do mundo irreal das drogas.

Enquanto as suas correspondências cabalísticas, dois caminhos guardam uma certa semelhança com O Enforcado, o décimo terceiro e o décimo quinto, no sentido de sacrifício, de tensão inferior que supõe, nos direciona para uma maior correspondência como décimo quinto, pertencente ao Pilar do Equilíbrio, do caminho direto entre o homem e a divindade.

 

 

 


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