O pieguismo e excessivo sentimentalismo romântico não pode durar muito. Como reação aparece o Realismo, cuja estética é centrada na busca da verdade como tal, o “real” aqui e agora. Por isso a arte será concebida como representação objetiva da realidade, os temas serão universais, a razão tentará conter o extravasamento sentimental.
A descrição pormenorizada dos fatos e a feitura dos personagens baseadas nas conquistas da biologia e da psicologia, muito em evidência na época, são outras das marcantes características do Realismo. Daí servirem de temas as cenas da vida comum e servirem como personagens pessoas simples do povo ou inexpressividades da sociedade. O determinismo e consequentemente o fatalismo estão por baixo da construção psicológica dos personagens, os quais não conseguem escapar do destino que lhes é traçado. O excesso em procurar explicar os comportamentos humanos segundo a biologia, a fisiologia faz surgir dentro do realismo o naturalismo. Na poesia, os temas são filosóficos e a corrente poética é conhecida pelo nome de Parnasianismo, cujos cultores são por demais apegados à forma de expressão. Os realistas também se distinguem por um cuidado extremo em relação à linguagem.Em Portugal o Realismo começou
com A Questão Coimbra e As Conferências do Cassino.
A questão Coimbra surgiu com a
disputa entre os estudantes da Universidade de Coimbra, liderados por Antero de
Quental e Teófilo Braga e que já haviam publicado, respectivamente Odes
Modernas e Tempestades Sonoras e Antônio Feliciano de Castilho, que
os criticara no posfácio a Poemas da Mocidade de Pinheiro Chagas.
Naturalmente que as novas ideias realistas estavam com os jovens de Coimbra, as
quais, posteriormente, foram divulgadas nas Conferências do Cassino, como
também na série As Farpas, escritas por Ramalho Ortigão e Eça de
Queirós. As conferências realizaram-se, sob patrocínio do grupo jovem, no
Cassino. Lisbonense, em Lisboa, em 1871.
Antero Tarquínio de Quental
(1842-1892), não é parnasiano, porque, a rigor, a poesia parnasiana
diferenciava-se da poesia realista como tal. O parnasianismo queria a arte pela
arte, o objetivismo e impassibilidade do poeta. Antero foi lírico, seus temas
são a dúvida, a busca da verdade. Com Camões e Bocage é o terceiro grande
sonetista da língua:
“Na mão de Deus”
Na mão de Deus, na sua mão
divina,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada
estreita.
Como as flores mortais, com que
se enfeita
A ignorância infantil, despojo
vão,
Depus, do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração
liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente.
Antero do Quental
“A Virgem Santíssima”
Cheia de graça, Mãe de
Misericórdia.
Num sonho todo feito de
incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…
Não era o vulgar brilho da
beleza,
Nem o ardor banal, da mocidade
Era outra luz, era outra
suavidade,
Que até nem sei se as há na
natureza
Um místico sofrer... uma ventura
Feita só de perdão, só de ternura
E da paz da nossa hora
derradeira…
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim
chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!
(Antero de Quental)
Abílio Manuel de Guerra Junqueiro
(1850-1923). Numa primeira fase de sua vida foi agressivo, atacando o governo e
a Igreja em A Morte de D. João e A Velhice do Padre Eterno.
Depois, aproxima-se da fé, reconcilia-se com a Igreja. Escreve Os Simples,
com motivos singelos, numa linguagem mais pura e equilibrada.
Antonio Duarte Gomes Leal
(1848-1921) com Claridades do Sul, Anticristo, etc.
João de Deus Ramos (1830-1896),
que não se impregnou tanto pelo espírito realista, ficando um tanto à margem.
Deixou Campos de Flores.
José Joaquim Cesário Verde
(1855-1888), que influenciou muito os modernistas.
Entre os parnasianos conta-se
Antonio Cândido Gonçalves Crespo (1846-1893). Brasileiro. Deixou Miniaturas
e Noturnos.
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| Imagem 01 - Acervo: Ludus Schola Eça de Queirós |
José Maria Eça de Queirós
(1845-1900). Um dos maiores prosadores da Literatura Portuguesa. Numa 1ª fase
(1866-1875), romântica, o autor procura o domínio da língua e os temas. As
obras: Prosas Bárbaras, Uma Campanha Alegre (suas produções em As
Farpas) e de parceria com Ramalho Ortigão O Mistério da Estrada de
Sintra. A 2ª fase começa com O Crime do Padre Amaro (1875) e segue
com O Primo Basílio, A Relíquia, Os Maias, em que,
mordazmente Eça critica a sociedade portuguesa: a influência clerical nociva
numa sociedade provinciana, o donjuanismo, o adultério decorrente da má
formação moral da mulher e do casamento por interesse, a hipocrisia e os falsos
valores religiosos, a sociedade aristocrática, elegante, ociosa, com seus
políticos e homens de altos negócios. Nessas obras ele se mostra genial na
caracterização dos tipos humanos, criando em O Primo Basílio a famosa
figura do Conselheiro Acácio. Numa 3.ª fase (1887-1900) sua obra torna-se mais
construtiva e artisticamente chega ao ápice: A Ilustre Casa de Ramires, A
Correspondência de Fradique Mendes, A Cidade e as Serras, Os
Contos (entre os quais citem-se Singularidades de Uma Rapariga Loira,
No Moinho, Perfeição e Suave Milagre), Últimas Páginas.
O Conselheiro Acácio
Era alto, magro, vestido todo de
preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo
ia-se alargando até à calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto. Tingia
os cabelos, que, duma orelha à outra, lhe faziam colar por trás da nuca - e
aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia
o bigode; tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido;
nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas
grandes muito despegadas do crânio.
Fora, outrora, diretor-geral do
ministério do Reino, e sempre que dizia – El-Rei - guia-se um pouco na cadeira.
Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviais;
não dizia “vomitar”; fazia um gesto indicativo e empregava “restituir”. Dizia
sempre “o nosso Garrett, o nosso Herculano”. Citava muito. Era autor. E, sem
família, num terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado com a criada,
ocupava-se de economia política: tinha composto os Elementos Genéricos da
Ciência da Riqueza e sua Distribuição, Segundo os Melhores Autores e, como
subtítulo: Leituras do Serão. Havia apenas meses publicara a Relação de todos
os Ministros d'Estado, desde o Grande Marquês de Pombal até nossos dias, com datas
cuidadosamente averiguadas de seus nascimentos e óbitos”.
__ Já esteve no Alentejo, conselheiro? __
perguntou-lhe Luísa.
__ Nunca, minha senhora __ e curvou-se.
__ Nunca! E tenho pena! Sempre desejei lá ir,
porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.
Tomou uma pitada de uma caixa dourada, entre
os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:
__ De resto, país de grande riqueza suína!
__ Ó Jorge, averigua quanto é o partido da
câmara de Évora __ disse Julião, do canto do sofá.
O conselheiro acudiu, cheio de informações,
com a pitada suspensa:
__ Devem ser seiscentos mil-réis, Sr. Zuzarte,
e pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Por que, sr. Zuzuarte, quer
deixar Lisboa?
__ Talvez!...
Todos desaprovaram.
__ Ah! Lisboa é sempre Lisboa! __ suspirou D.
Felicidade.
__ Cidade de mármore e de granito, na frase
sublime do nosso grande historiador! __ disse solenemente o conselheiro... (O
Primo Basílio).
José Valentim Fialho de Almeida (1857-1911),
panfletista (Os Gatos) e contista (O País das Uvas, A Cidade do
Vício, etc.).
José Duarte Ramalho Ortigão (1836-1915),
panfletista.
Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845-1894),
historiador.
Teófilo Braga (1843-1923), poeta, crítico
literário, historiador.
Como representante do naturalismo há o nome de
Abel Botelho (1856-1917) com O Senhor Deputado, O Bastardo, O Barão
de Lavos, etc.
Eça de Queirós (visto por Bordalo Pinheiro)



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