Este o cogumelo mais venenoso da Terra. E o símbolo mais assustador da história humana. Na verdade, trata-se de uma nuvem, mas não de uma nuvem comum. Ela resulta da explosão de uma bomba de hidrogênio. Como se estivesse iluminada por mil sóis, pode ser vista – dois minutos após a detonação de 80 quilômetros num raio de 80 quilômetros.
Em 1952, no atol de Enewetak, no oceano Pacífico, os Estados Unidos fizeram explodir pela
primeira vez uma bomba desse tipo. A energia produzida foi tamanha que a ilha
onde se realizou a experiência simplesmente desapareceu. E a temperatura no
centro da bomba, no momento da detonação, foi avaliada em 100 milhões de graus
centígrados. O poder de destruição daquele engenho era maior que o de todas as
bombas químicas convencionais juntas usadas na II Guerra Mundial. Tão
extraordinária força explosiva seria porém considerada pequena em comparação
com a das bombas nucleares detonadas nos anos seguintes pelos EUA e URSS e cujo
poder é tão grande que, para ser medido, foi criada uma unidade correspondente
a 1 milhão de toneladas de dinamite, o megaton.
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| Imagem 01 - Acervo: Ludus Schola Explosão de um a Bomba formando o famoso cogumelo. |
Morto por fogo e por água
A ideia de uma guerra
nuclear, em que certamente não haverá vencidos nem vencedores, ou melhor,
haverá apenas vencidos (visto que uma conflagração dessas significará o fim da
civilização tal como a entendemos), parece mais remota nos anos 60 do século XX
que na década anterior.
Os dois primeiros sócios
do assim chamado clube nuclear Esta dos Unidos e União Soviética esforçam-se
para proscrever o uso de bombas de hidrogênio e impedir que outros países
também passem a construí-las. E deram exemplo em 1963, ao assinarem em Moscou o
Tratado de Proscrição de Experiências Nucleares e convidando todos os países a
ratificar o acordo. (Apenas a França e a República Popular da China deixaram de
fazê-lo.) Nos termos do pacto, as nações comprometem-se a não realizar testes
nucleares na atmosfera, mas apenas subterraneamente.
Uma bomba de hidrogênio detonada subterraneamente acarreta apenas um ligeiro tremor de terra. Já as consequências de uma explosão nuclear na atmosfera são aterrorizadoras: destruição completa de quaisquer construções num raio de 6 km; pulverização dos vidros de janelas até 150 km – ou mais – de distância; terríveis incêndios – causados só pelo calor produzido – numa área de 15 km. Entretanto, os efeitos mais letais e duradouros da bomba não ocorrem imediatamente.
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| Imagem 02 - Acervo: Ludus Schola |
Devastação que uma bomba H causaria num
centro habitado. A chuva radioativa afeta áreas muito amplas, de centenas de
km² de superfície. |
E seu causador direto é aquela
nuvem em forma de cogumelo que resulta da explosão. Ela se transforma em chuva
e poeira radiativas, que os ventos se encarregam naturalmente de espalhar.
Sabe-se que, num raio de 200 km da explosão, todos os seres vivos estariam
expostos a uma dose fatal de poeira radiativa. A região contaminada permanecerá
completamente inabitável durante meses ou até anos a fio.
No entanto, a mesma
energia que permite a explosão de bombas H pode tornar a vida humana fantasticamente
mais confortável. Algumas indicações nesse sentido já podem ser percebidas nos
resultados das primeiras experiências – desta vez para fins pacíficos com essa
fonte de energia
Num futuro talvez não
muito distante, casas serão iluminadas por centrais atômicas, que também
produzirão força para alimentar as fábricas. Será até uma solução mais barata
que a da energia elétrica, pois sua fonte será o hidrogênio pesado da água. E
dois terços do globo estão recobertos de água.
Bombas atômicas e de
hidrogênio também poderão escavar túneis, mudar o curso de rios. Já se pensa,
aliás, em abrir um novo canal entre o Atlântico e o Pacífico (pelo México)
usando energia atômica. E, por falar em oceanos, os soviéticos construíram um
quebra-gelos, o “Lênin”, que se locomove graças ao calor de um reator nuclear,
ao invés de depender da tradicional caldeira. Assim, o navio não precisa voltar
com frequência à base para se reabastecer.
H: fusão A: fissão
A bomba de hidrogênio funciona
de acordo com princípios enunciados pelo físico Albert Einstein, segundo
os quais pode produzir-se energia diretamente a partir da destruição de
matéria. A relação é colossal: da completa destruição de um quilo de matéria
resultam 25 bilhões de quilowatts-hora de energia. Uma cidade como São Paulo,
por exemplo, que consome perto de 25 milhões de kwh num dia, poderia ser alimentada
nesse período pela total destruição se fosse possível fazê-lo – de apenas um
grama de matéria.
A destruição de matéria,
cuja consequência é a libertação de fantásticas quantidades de calor e energia,
no caso que estamos tratando acontece por causa de uma reação – a fusão – em
que os núcleos de dois átomos de hidrogênio pesado (deutério) se juntam para
formar um núcleo de hélio. Mas veja bem: não se trata de uma reação química, e
sim de uma reação nuclear. A distinção é fundamental, porque o núcleo do átomo
de hélio produzido não pesa tanto quanto os núcleos de deutério que se combinam
para formá-lo. O peso que se perde na fusão transforma-se em energia.
É óbvio que a “receita” exata para fabricar uma bomba H é o segredo dos segredos. Mas tem-se uma ideia aproximada do processo. É sabido que a matéria-prima da bomba são os núcleos de átomos de deutério. (A diferença entre os átomos comuns de hidrogênio e os de deutério consiste no seguinte: o núcleo do átomo de hidrogênio tem apenas um próton, ao passo que o núcleo do átomo de deutério é um próton e um nêutron.) Bomba e detonador (provavelmente uma bomba atômica) precisam ficar fechados numa caixa muito forte, para que o calor do detonador seja contido o maior espaço de tempo possível. Se não, a fusão poderá deixar de ocorrer.
Não é um problema simples detonar uma bomba H. A reação requer uma quantidade considerável de energia para começar. É que os núcleos de hidrogênio possuem todos carga elétrica positiva e, portanto, se repelem. A fim de contornar esse obstáculo, é preciso fazer com que os núcleos se choquem um contra o outro a uma velocidade muito grande, para vencer a repulsão das cargas positivas. Ora, tal velocidade só pode ser alcançada submetendo o material de fusão a temperaturas elevadíssimas. Como conseguir tanto calor? Por outra bomba nuclear. Ou seja, o detonador de uma bomba H é uma bomba atômica.
A bomba A também usa a reação
nuclear para criar sua energia, porém o processo é diferente. Baseia-se não na
fusão de dois núcleos, mas no rompimento – fissão – de um. No caso da bomba A,
os núcleos de urânio-235 ou plutônio-239, muito maiores, rompem-se em numerosos
fragmentos, que os cientistas chamam de produtos de fissão.
Os produtos de fissão
pesam ao todo menos que o núcleo original. Como se pode imaginar, o peso
perdido transformou-se em energia, como acontece com a bomba H. E a energia
produzida é a necessária para vencer a repulsão das cargas elétricas positivas
dos núcleos de deutério, o que equivale a uma aceleração em um potencial de
mais de um milhão de volts. O esforço compensa, porque a energia liberada
depois dessa reação nuclear é pelo menos 10 vezes maior.
Pouco tempo, muito calor
Todo esse problema
aparece com nitidez nas experiências com energia nuclear para fins pacíficos. É
que os materiais empregados se vaporizam a temperaturas ainda inferiores às
necessárias para desencadear a fusão. O remédio encontrado consiste em manter
os núcleos de deutério em íntima conexão com campos magnéticos e elétricos, num
recipiente que é uma garrafa magnética, em que o gás é aquecido por descargas
elétricas de alta intensidade.
Trata-se, entretanto, de
um remédio parcial, porque é difícil sustentar por tempo suficiente a elevada
temperatura para que a reação de fusão se concretize. E quando se fala em tempo
suficiente não se cogita de horas nem de minutos. O tempo necessário para que
se dê a fusão é menor que um milésimo de segundo.
Se o Sol for domado
Conseguir controlar o processo de fusão equivalerá a domar o Sol. Quando isto acontecer, com um quilo de deutério será possível obter 100 milhões de grandes calorias. Para se ter ideia do que essa cifra representa, basta lembrar que um quilo de petróleo fornece 10 mil calorias; logo, o deutério é um combustível 10 mil vezes mais poderoso.
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| Imagem 03: Acervo Ludus Schola |
Daí, um automóvel que consuma 10 litros de gasolina por dia poderá rodar teoricamente
durante 30 anos com um só quilo de deutério, sem precisar de reabastecimento. E
os foguetes interplanetários poderão dispensar as grandes reservas de
combustível, cujos tanques pesam algumas vezes mais que a própria nave.





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