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As origens da Europa Medieval

 


O fim da Antiguidade Clássica foi um período assinalado por transformações bastante importantes e não pode ser precisado por uma data determinada.

Diversos historiadores sugerem a deposição do imperador romano Rômulo Augusto, em 476, como o marco inicial da Idade Média na Europa, enquanto outros preferem o ano de 395, morte de Teodósio I e fim da breve reunificação do Império Romano. Mas há também historiadores que atribuem o fim da Antiguidade Clássica com o assassinato da filósofa Hipácia de Alexandria, numa tarde de 415. O que importa, porém, para o conhecimento das origens da Europa Medieval não é a determinação de uma data, mas a compreensão de que a partir da decadência do Império Romano e das invasões bárbaras, uma nova cultura começou a se desenvolver na Europa.


Imagem 01 - Acervo: Ludus Schola
Mapa do vasto Império Romano e os povos bárbaros no século V da era Cristã.

 

 

Tempos difíceis e estabilização da Igreja Católica

Queda do Império Romano

 

A fragmentação política e cultural do Império Romano processou-se com as invasões dos bárbaros germânicos nos séculos IV e V.

A infiltração dos povos germânicos do norte da Europa (visigodos, vândalos, anglo-saxões, francos, etc.) no território romano havia começado séculos antes através dos seguintes processos:

  • filiação de bárbaros, grandes guerreiros, ao exército romano;
  • fixação de famílias de bárbaros como servos nas grandes propriedades;
  • invasões violentas, dos séculos IV e V, que provocaram destruição e decadência econômica e cultural.

Foram os visigodos que abriram caminho para a destruição do mundo romano: venceram o exército romano em Andrianópolis (378), capturaram e saquearam Roma (410). A partir daí, várias outras tribos germânicas invadiram, também violentamente, o território romano, culminando com a desagregação do Império Romano do Ocidente no século V.

Com a ocupação da Itália, Gália e Inglaterra por povos germânicos, a Europa Ocidental modificou-se: surgiram os reinos bárbaros. Uma nova época começou – a Idade Média, caracterizada, em sua fase inicial, por violências, decadência econômica e cultural.


Imagem 02 - Acervo: Ludus Schola
Os reinos bárbaros da Europa no final do século VI e início do século VII.


No século VII, outras invasões as dos árabes, perturbaram, ainda mais, a Europa Ocidental. Os árabes, povo de religião muçulmana, iniciaram uma guerra santa contra os demais povos, considerados por eles como infiéis. Após a conquista da Síria, Egito e Pérsia, conseguiram impor seu domínio na África do Norte e em quase toda Península Ibérica, prejudicando seriamente o comércio no Mediterrâneo e aumentando a decadência econômica da Europa. No século VIII, os francos conseguiram evitar a continuidade da expansão árabe na Europa Ocidental com a Batalha de Poitiers (732).

 

A ação da Igreja

 

No primeiro período da Idade Média, cheio de violências e dificuldades, a Igreja representou a única instituição organizada. Esse fato permitiu-lhe impor-se aos reinos bárbaros. Através da influência da Igreja, muito da organização e do pensamento romano permaneceram na civilização que estava se formando na Europa Ocidental. Uma nova civilização apareceu como resultado da adaptação da cultura clássica às novas condições de vida nas comunidades semibárbaras.


Imagem 03 - Acervo: Ludus Schola
Monge medieval copiando em forma de manuscrito obra de autores clássicos e as Escrituras.


No choque e na fusão das culturas clássica e bárbara nasceu uma nova mentalidade que, influenciada pela religião cristã, considerava a salvação eterna o objetivo principal do homem na terra. Em decorrência do universalismo, um dos princípios do cristianismo, surgiu o espírito missionário. Por esse motivo, desenvolveu-se o grande processo de cristianização dos bárbaros através dos monges. O trabalho realizado pelos monges que passaram a viver e trabalhar nas comunidades bárbaras foi de grande importância tanto sob o ponto de vista cultural como econômico. Seu objetivo fundamental era a conversão e a civilização de toda a Europa Ocidental.

Com o avanço do cristianismo, verificou-se paralelamente a introdução pelos missionários, de escolas, técnicas de trabalho agrícola, de elementos de organização social e política de origem romana nas comunidades semibárbaras. Com esse trabalho, foram lançados os fundamentos da nova civilização europeia resultante da fusão da cultura clássica com as culturas bárbaras através de um processo de adaptação às novas condições de vida.

 

A monarquia franca e as bases da organização feudal

 

No princípio do século VI, a Europa Ocidental encontrava-se dividida em vários reinos bárbaros.

Dos diversos grupos germânicos, os francos foram os que realizaram a obra política mais duradoura dando origem a duas nações modernas: a francesa e a alemã. Fundaram um império que incluía grande parte da Europa Ocidental, exceto a Península Ibérica e as ilhas Britânicas.


Imagem 04 - Acervo: Ludus Schola
Pintura do Livro de Horas do Duque Berry representando a cavalgada realizada tradicionalmente no mês de maio, podendo-se notar a elegância na nobreza francesa dos fins da Idade Média.


Duas grandes dinastias, a merovíngia e a carolíngia, caracterizam a história dos francos. Clóvis (481-511), descendente de Meroveu (fundador da primeira dinastia franca), foi o organizador do Império Franco. Sua conversão ao cristianismo garantiu-lhe o apoio do clero, principalmente do poderoso Bispo da Aquitânia, dando-lhe condições de fortalecer seu poder. A história política dos francos foi marcada pela violência e luta pelo poder. 

O fim do século VII e a primeira metade do século VIII constituíram um período de lutas constantes, internas e externas, assinalando o declínio da dinastia merovíngia e o fortalecimento do poder de Pepino d’Heristal, “Prefeito do Paço”. Seu filho, Carlos Martel, impediu a expansão do domínio árabe na Europa na Batalha de Poitiers fortalecendo ainda mais, o poder dos d’Heristal. Para poder dispor de maior número de guerreiros bem armados, Carlos Martel desenvolveu o costume já antigo dos francos de distribuição de terras em troca de benefícios. A exploração das terras permitia ao guerreiro, além de sustento, recursos econômicos para:

  • obter o equipamento dispendioso de guerra, como a armadura e a montaria numa época em que a cavalaria tornara-se base da força militar;
  • reunir sob sua liderança um grupo de guerreiros, uma vez que ele mesmo poderia ceder parcelas de sua terra em troca de ajuda militar e fidelidade.

O guerreiro que recebia a terra (vassalo) tornava-se obrigado a prestar serviços ao seu Senhor em qualquer ocasião necessária. Em pouco tempo aumentou consideravelmente o número de senhores e vassalos em toda a monarquia franca pois era possível ao vassalo, por sua vez, conceder terras, em forma de benefício a outros guerreiros. Esse costume deu origem:

  • ao estabelecimento de laços de dependência de homem para homem com base na posse da terra;
  • ao estabelecimento de uma hierarquia entre os senhores, decorrente do direito de cada vassalo de redistribuir a terra que recebeu.

Fortalecida com o apoio de inúmeros guerreiros e do Papa, a família d’Heristal conseguiu derrotar o último rei merovíngio e iniciar uma nova dinastia. A dinastia carolíngia alcançou o apogeu com Carlos Magno, maior figura militar e política da Idade Média. Conseguiu aumentar grandemente o território, impondo o cristianismo e a civilização a outros grupos bárbaros.


Imagem 05 - Acervo: Ludus Schola
Pintura do livro de Horas do Duque de Berry, representando o trabalho nos campos em setembro. 


As pretensões do Império Romano do Oriente em estender seu domínio na Europa, foram frustradas através da coroação de Carlos Magno, Imperador dos Romanos, pelo Papa Leão III, restaurando-se assim nominalmente o Império Romano do Ocidente. Essa restauração, entretanto, não foi duradoura porque a morte de Carlos Magno impediu a concretização da unidade política da Europa crista que se pretendia com a restauração do Império Romano do Ocidente. Com os sucessores de Carlos Magno processou-se a fragmentação dos domínios através do Tratado de Verdum (843) desaparecendo a unidade política que Carlos Magno tentara impor à Europa Ocidental.

Apesar da dinastia franca ter se extinguido no decorrer do século X, as práticas de vassalagem e juramento de fidelidade ao Senhor tinham-se espalhado, com maior ou menor amplitude, na Europa Ocidental.

  

O estabelecimento do feudalismo

 

Nos séculos IX e X, novas invasões (normandos, árabes, eslavos e húngaros) acentuaram as mudanças que se vinham processando desde a queda do Império Romano do Ocidente. A insegurança provocou a regressão da Europa Ocidental a uma civilização puramente rural verificando-se o declínio das cidades e do comércio. A única fonte de subsistência tornou-se a terra e sua posse era sinônimo de riqueza. Todas as classes da população viviam direta ou indiretamente da exploração da terra, seja como senhores ou trabalhadores rurais. Devido às necessidades do trabalho no campo, os camponeses, em sua grande maioria, foram pouco a pouco perdendo sua liberdade e sendo colocados presos à terra.


Imagem 06 - Acervo: Ludus Schola
Pintura do Livro de Horas do Duque Berry referente ao mês de abril, podendo-se notar os trajes da época


O costume de distribuição de terras em troca de vassalagem deu origem ao predomínio econômico e político dos senhores de terra sobre a classe servil. Por sua vez, o Estado perdeu a autoridade porque o poder público descentralizou-se nas mãos dos senhores de terra que passaram a ser, em seus domínios (feudos) verdadeiros soberanos.

Sintetizando, se afirma que:

  • o sistema de distribuição de feudos determinou o enfraquecimento do Estado, porque promoveu a diminuição do poder real e permitiu o aumento progressivo do poder dos grandes senhores de terra;
  • o retorno a uma economia predominantemente agrícola deu origem a uma sociedade fortemente hierarquizada, dividida em senhores e servos;
  • a redução dos camponeses a um regime de escravidão à terra (servos da gleba) criou, em consequência, um estado de semiliberdade para a maioria da população.

Esta nova ordem estabelecida é conhecida como regime feudal. Feudalismo e práticas feudais não se estenderam uniformemente sobre toda a Europa. Variavam de lugar para lugar e se transformaram com o passar dos tempos. As regiões mais feudalizadas foram o norte da França e os Países Baixos.


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