Iod (Virgem)
ROTA FORTUNAE
Testamentum – Quabbalah
- Fortuna
A ideia que cerca este arcano é tão antiga quanto a humanidade, pois, desde sempre se comparou este arcano à mutabilidade das situações e acontecimentos da vida com os movimentos giratórios de uma esfera ou de uma roda, nos quais, uma parte qualquer as mesmo tanto se encontra acima como abaixo, subindo ou baixando.
Foram os gregos, sempre
dispostos a criar novos deuses que cumpriram responsabilidades num estado
elevado, assim como quando criaram uma deusa, a Fortuna, capaz de justificar
com suas veleidades as situações e mudanças de posição que consideram
imprevisíveis e opostos à inflexibilidade e imutabilidade do destino.
Para isso representaram
como uma mulher com os olhos vendados, ou cega e calva, com um pé no ar e o
outro apoiado sobre uma roda alada ou girando a toda velocidade, e portando em
uma das mãos os chifres da abundância.
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| Imagem 01 - Acervo: Biblioteca Mística de Motosofia Arcano Maior A Roda da Fortuna |
A partir de então esta imagem tem sofrido uma
infinidade de variações, começando pela clássica sobre um globo ou uma roda, ou
situando-se dentro da mesma, fazendo-a gorar com suas mãos ou colocando-a por
trás, até a roda atingir o eixo e uma manivela pata fazê-la girar com figuras
humanas em seu pneu que representava a ascensão e quedas mundanas, e terminando
por trocar as ditas figuras por animais reais ou simbólicos e inclusive
suprindo, em alguns casos, a imagem da deusa Fortuna.
Portanto, a imagem da
Fortuna fecha outro significado mais profundo já mencionado na escola órfica
quando a define como “Rota fati et
generationis”, a roda da fatalidade e da geração, ou seja, a roda dos
nascimentos e mortes sucessivas, a fatalidade da reencarnação, mediante o
processo cíclico da existência do todo no universo.
Nem no Tarot de Mantegna, nem no de Carlos VI, existe
este arcano, ou ao menos que não tenha chegado até nós nenhuma representação do
mesmo; aparece pela primeira vez no Tarot de Visconti-Sforza representando a fortuna com os velhos vendados e
fazendo girar a roda desde seu interior, com quatros figuras humanas que
refletem a evolução da vida, em idade e fortuna: da infância e da velhice, e da
miséria ao trono para retornar à indigência.
Importante mencionar que
no Tarot de Visconti-Sforza, assim
como nas imagens medievais, a roda gira na direção dos ponteiros do relógio, e
com isso o movimento da roda se dirige para a esquerda da lâmina indicando
ações sucessivas de acordo com o simbolismo da época, enquanto no Tarot de Marselha e os derivados do mesmo se
inverte o sentido do movimento, o qual, segundo Rijnberk, poderia ser devido
que no século XV, quando se iniciou o sistema de impressão por gravado, o
desenho original se reproduz invertido.
Descrição
A roda representa o movimento
cíclico que rege o universo e, neste caso especial, a vida humana; sua borda é
de cor carne para ressaltar que sua ação se realiza preferencialmente no plano
físico e material; seu interior é vermelho para indicar o dinamismo que move, e
seus raios são azuis e brancos, pois, o dinamismo parte do mundo espiritual e
se trata de um processo intemporal, além do tempo e do espaço, o que reafirma o
branco do eixo ao redor do que gira e a manivela que a move.
Sustenta sobre os dois
montantes amarelos para indicar que sua ação não é fruto da causalidade, mas de
uma inteligência que reside fora da roda e, por tanto, do círculo das
circunstâncias e encarnações; suas bases, também amarelas, se encontram unidas
por duas travessas cores de carne, para indicar a indissolúvel união material e
mental do processo, e se apoiam sobre o chão também cor de carne; é dizer, que
o conjunto da ação deve desenvolver-se sobre o mundo físico e material em que
vivemos.
A figura descendente, o que apresenta ser um
macaco, surge olhando para frente e sua cor é carne e veste uma saia vermelha e
azul, dando predomínio ao vermelho, indicando, pois, que descende pela ação
direta de sua vontade, que somente em sua parte instintiva, dominada pelo campo
das paixões, existe, portanto, um resquício de espiritualidade, que se
direciona para o destino que o aguarda, segundo se desprende da triste
expressão de seu rosto.
Enquanto a figura
superior, ao assemelhar-se a uma esfinge azul com asas vermelhas, simboliza a energia
da manifestação do destino toldado pela justiça, inexorável e intemporal, cuja
ação é totalmente direta, pois, aparece de frente; sua vontade e livre arbítrio
espiritual estão sendo regidos por uma inteligência suprema, como assim indica
a coroa dourada; suas asas vermelhas, mais que paixão, se referem ao dinamismo
de inteira personalidade ou manifestação do destino; a espada branca que mantém
em sua mão esquerda, que ao aplicar a justiça o faz num estado de ânimo
totalmente neutro e imparcial. Também se apoia sobre uma base amarela, por cima
da roda, para indicar que se fundamenta na inteligência, que está acima das
mudanças e encarnações.
Simbolismo
O dez é o número que
fecha um ciclo para iniciar outro, sendo por sua vez o fim e o princípio. Por
isso que devemos considerar como uma imagem da totalidade do universo em
movimento; enquanto no hebreu o número dez corresponde com a letra yod, origem das restantes letras do
alfabeto, o que nos leva a refletir o princípio de toda atividade, de toda
causa eficiente e todo destino individual.
Por isso se identifica
perfeitamente com A Roda da Fortuna para simbolizar os diferentes estados e
progressos da evolução humana, assim como a roda cíclica das existências; e
também nos leva a compreender no intelecto místico e racional que em todo ser
humano existe algo, aqui se referindo a alma, que persiste através das
distintas existências, por isso que a mudança e a evolução tem lugar na forma
de ciclos sucessivos até alcançar o rompimento ou extinguir a roda cármica.
Assim sendo, também nos
indica a energia que nossa atual existência neste plano é transitória e somente
é estável aquilo que permanece fora, por cima da roda, e a presença da manivela
serve para lembrar-nos a existência de algo graças ao qual podemos adiantar,
retardar ou inclusive inverter a evolução, ou involução manifestada; girar a
manivela da Roda da Fortuna, dominar o próprio destino, é o desejo que
manifesta todos os seres, mas para isso devem estar conscientes que possuem
faculdades para atingir ou assim como para despertá-las.
Leia também: O Ermitão - Arcano IX - Lição de Tarot (arcanos Maiores): simboliza a coroação ou realização de uma tarefa
Significado Adivinhatório Geral
A Roda da Fortuna sempre
se refere a uma pessoa dinâmica e prática, com presença de espírito,
oportunismo e sorte pessoal, que deseja que as coisas se movam, por isso,
amante do risco e das aventuras, sabendo que tanto pode chegar por cima ou
despencar-se pelo caminho.
No campo espiritual
aponta o fim de um ciclo e o início de outro superior; é o destino que
transcende a nossa vontade por encontrar-se condicionado por fatos anteriores
em relação à etapa atual. No campo material devemos considerar que se com O
Ermitão nos encontrávamos diante da influência do tempo, a lentidão e a reflexão,
A Roda da Fortuna representa o oposto, pois, agora nos encontramos diante da
mudança, a rapidez, as decisões sobre o progresso, a evolução das coisas e
assuntos, a sorte ou a desgraça, o imprevisto, a novidade.
Portanto se, inclusive,
aparece invertida não é uma carta ruim, pois no pior dos casos atrasa o
acontecimento das coisas, sendo que sua realização é postergada para o próximo
ciclo, sujeito a posterior programação dos acontecimentos, no entanto, não era
o momento oportuno para pôr em prática, precipitando os fatos. Não devemos
esquecer que seu movimento, sem deixar de ser aparentemente imprevisível, é
irreversível tanto na subida como na descida, e em último caso nos indica que
antes de voltarmos a subir, de conseguir nossos objetivos, devemos pagar a
culpa de erros anteriores e aprender a corrigi-los.
Significados
Adivinhatórios Concretos
Saúde ‒
Se refere em mudança na mesma, desde que seja um novo rejuvenescimento, a crise
favorável e decisiva de uma enfermidade que parecia estar sanada, um novo
diagnóstico e tratamento que se revelará eficaz.
Invertida, a troca é para
o mal, é uma queda do ritmo da vitalidade que tanto pode desencadear uma gripe
como um problema intestinal de rápida evolução, mas nunca algo grave.
Mentalidade
– Se manifesta de forma prática e rápida, com boa capacidade de criação,
inovadora e oportunista.
Invertida apresenta
empecilhos entre o processo mental e a realidade dos fatos, o que leva a deduções
erradas ou falta de previsão, com o qual em lugar de antecipar-se ao curso dos
acontecimentos e tirar proveito dos mesmos, se peca por precipitação ou falta
de oportunismo.
Sentimentos ‒
Apesar da propensão e facilidade para sentir e expressar sentimentos e emoções,
enquanto que não são estáveis e podem mudar rapidamente e imprevisivelmente de
objetivos e pessoas. É por isso que aponta novos amores e sentimentos, e em
ocasiões um reforço e revitalização das alianças já existentes.
Invertida segue sendo o
mesmo, mas as trocas se sai perdendo; não é a mudança agradável e boa de
sentimentos sem a mudança contra nossa vontade e desejos; não é um novo amor
que encherá nossa vida, sem a perda do antigo amor a mudança de outro incerto e
pouco duradouro, ao qual devemos tentar esforçar para restaurar o perdido.
Família
– Indica mudanças favoráveis no seio familiar, já que seja por matrimônio, por
incremento da família ou simplesmente por uma melhoria imprevista nas condições
do lar, ou uma mudança de casa que implica numa apreciável melhoria.
Invertida segue apontando
mudanças e acontecimentos imprevistos, mas desagradáveis, se bem de caráter
temporal e cujas consequências não serão graves nem duradouras.
Amizades
– Nas amizades ocorre semelhante aos sentimentos: novas amizades e novas
relações, mas neste caso de caráter circunstancial e oportunista. Também aqui
existem casos nos quais se direciona a mudanças na qualidade das amizades
existentes; em que nos damos conta de seu verdadeiro valor.
Invertida se refere à
separação temporal de antigas amizades, ou a sua substituição por outras
amizades novas, mas sempre perdendo na mudança e ansiando pelo momento de
recuperar os contatos perdidos.
Trabalho
– Tanto pode indicar uma mudança de trabalho como mudança dentro do trabalho,
mas sempre no sentido de uma fácil e inesperada melhoria; em termos gerais é
uma carta muito favorável para atividades, como o comércio e os negócios, em
que é necessário saber adaptar-se com rapidez e habilidade mediante as
circunstâncias oscilatórias e imprevisíveis do mercado, e também para aquelas
que exigem engenhosidade e criatividade.
Invertida se refere a
circunstâncias imprevistas que causam atraso ou um retrocesso nas condições
profissionais, ou trabalhistas; pode se tratar de um mau negócio, um
imprevisto, uma análise errada das condições de mercado, uma ideia que não se
concretiza, uma decisão equivocada; mas sempre de um caráter circunstancial que
não condiciona a médio nem a largo prazo.
Dinheiro
– É a pura sorte e simples que nos cai quando menos esperamos; ou a perda
inesperada que por algum tempo fará cambalear nossa economia.
Meditação sobre este Arcano
Ainda que consideremos
que o simples título desde arcano já nos define claramente seu significado, a
verdade é que quando o contemplamos com cuidado nos apresenta uma impressão
indefinida toldada de mistério e nos revela à mente uma infinidade de
perguntas, cuja resposta equivale em desvendar seu significado profundo.
Em efeito: porque esta
esfinge se encontra no alto? Por que se lhe acrescenta uma espada e uma coroa a
convertendo igualmente à justiça? Por que foi escolhido precisamente um macaco
e um cachorro como acompanhantes? Por que só existe um apoio para o eixo da
roda? Por último: quem a maneja?
A esfinge é um ser
simbólico composto por uma parte humana e três animais, a cabeça humana, o
tronco de toro, as garras de leão e as asas de águia, simbolizando assim a
união dos quatro elementos ‒ Fogo, Terra, Ar e Água ‒ ou os quatro signos fixos
‒ Touro, Leão, Escorpião e Aquário ‒ em sua quintessência ou espírito; contudo,
através de sua evolução no tempo se converteu no símbolo do inevitável, do
enigmático, e representa aquele destino que é ao mesmo tempo, mistério e
necessidade, uma que nos faz a eterna pergunta: quem és? De onde vens? Para aonde
vais?
De acordo com Christian,
a cabeça humana, símbolo de inteligência, nos diz que antes de entrar em ação é
necessário adquirir o conhecimento nos clarifique qual deve ser nosso objetivo
e o caminho a ser seguido; o tronco do touro, para superar as provas deva
munirmos de uma vontade forte, paciente e perseverante; as garras do leão, que
não basta querer, tem que ousar e abrir caminho, para lançar-se finalmente para
as alturas com o impulso irresistível das asas da águia. São quatro as vontades
da evolução: silenciar, saber, querer e ousar.
Ao descrever este arcano,
lhe impõe uma espada e uma coroa, símbolos de domínio e justiça, para indicar
enquanto gire a roda da vida e os acontecimentos acontecem, chegará o momento
fatal e inevitável em que a espada da justiça decidirá o destino individual,
jogando-nos para baixo, ou lançando-nos para o alto, segundo qual seja nossa
posição na roda no exato momento.
Para simbolizar a queda
foi escolhido um macaco, como se o desenhista daquela época distante não
conhecesse as modernas teorias evolutivas nas quais o homem não é um antropoide
evoluído, sendo o contrário, este último é uma degeneração de antepassado
comum.
Para simbolizar a
elevação foi escolhido o cachorro, aquele animal que possui sabedoria para
elevar-se à categoria de melhor amigo do homem, superando sua irracionalidade
dentro do possível.
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| Imagem 02 - Acervo: Biblioteca Mística de Motosofia A Roda da Fortuna representado pelo Tarot das Bruxas |
Por último, a falta de um
suporte do eixo da manivela devemos interpretá-la como uma forma de expressar a
impossibilidade de seu movimento desde um ponto de vista físico; somente será
possível fazer girar a roda se ela mantém forças invisíveis e intemporais
ultrapassando o limite do nosso conhecimento.
Este elemento que falta
nos faz pensar que para romper o ciclo interminável das encarnações, é
necessária a existência de um fator externo, em cujo caso nos encontraríamos no
triângulo dinâmico-destino, vontade e providência ao que Fabre d’Olivet reduz à
história do gênero humano quando afirma:
... estas duas forças
entre as que está situado são o destino e a providência; debaixo dele está o
destino, a natureza sujeita à necessidade; sendo que acima de você está a
Providência ou natureza livre; e o mesmo, como reino humano, é a vontade
mediadora, a força eficiente situada entre as duas naturezas para servir-lhes
de laço de união e reunir duas ações, que de forma diferente, seriam
incompatíveis...
A Roda da Fortuna nos
apresenta a necessidade de criar em nós a vontade mediadora que sirva de união,
destino e providência, permitindo-nos assim romper o círculo interminável das
encarnações.
Quanto as suas
equivalências cabalísticas e astrológicas, é irrefutável sua relação com o
décimo caminho e o signo de Libra.




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