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A gata borralheira - Contos dos Irmãos Grimm

 


A mulher de um homem de posses estava muito doente; chamou então a filhinha ao lado da cama e disse-lhe:

__ Querida filha, sê sempre uma boa menina e Deus te protegerá; lá do céu velarei por ti.

Cerrou os olhos e morreu.

A menina ia todos os dias ao túmulo da mãe, chorava e procurava ser boa e piedosa. Ao chegar o inverno, a neve estendeu um lençol branco sobre o túmulo e, quando na primavera o sol o retirou outra vez, o pai da menina casou-se novamente.


Imagem 01 - Acervo: Ludus Schola


A nova esposa trouxe consigo duas filhas. Eram lindas e tinham a pele alva, mas o coração era negro e malvado. Começou então uma época difícil para a meninazinha sem mãe.

Será preciso sentar-se sempre ao nosso lado? perguntaram as duas filhas. Quem quer comer deve trabalhar, pois vá para a cozinha. Vejam só a orgulhosa princesa como está enfeitada! gritavam e caçoavam elas, ao conduzi-la para essa peça da casa. A órfã buscava água, acendia o fogo, cozinhava e lavava; e ainda por cima caçoavam e judiavam dela. À noite, quando ia dormir, em vez da cama, deitava-se nas cinzas da lareira para encontrar um pouco de calor. Como andasse empoeirada e suja, começaram a chamá-la de Gata Borralheira.


Imagem 02 - Acervo: Ludus Schola


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O pai, certa vez, indo viajar, perguntou às filhas o que desejavam que lhes trouxesse.

__ Lindos vestidos, disse a primeira.

__ Pérolas e pedras preciosas, disse a segunda.

__ E tu, Gata Borralheira? Pede também qualquer coisa.

__ Traz-me o primeiro galho de aveleira a lhe bater no chapéu. O pai, comprou, pois, lindos vestidos, muitas pérolas e joias preciosas para as duas irmãs. Ao voltar, o ramo de um arbusto arrancou-lhe o chapéu. Era uma aveleira. Cortou-o, e, ao chegar à casa, deu às irmãs o que tinham pedido e à Gata Borralheira entregou o galho de aveleira.


Imagem 03 - Acervo: Ludus Schola


Gata Borralheira agradeceu muito e, indo ao túmulo da mãe, plantou o rebento. As lágrimas que sobre ele derramou foram tão abundantes, que ele cresceu rapidamente, transformando-se numa linda árvore. Três vezes por dia Gata Borralheira para lá se dirigia. Chorava e rezava, e todas as vezes aparecia um pássaro branco, e se a moça expressasse qualquer desejo era logo atendida por ele.


Imagem 04 - Acervo: Ludus Schola


Tendo o rei resolvido dar uma festa durante três dias para o príncipe escolher sua noiva, as três filhas da casa também foram convidadas.

As duas irmãs de criação começaram a gritar pela Gata Borralheira:

__ Vem pentear-nos os cabelos e escovar-nos os sapatos, pois vamos ao noivado do príncipe.

Ela obedeceu chorando, pois também gostaria de ir, mas a madrasta recusou dizendo:

__ Suja e empoeirada como estás queres ir também? Com que vestido? Com que sapatos?

Mas como não parasse de pedir, a madrasta disse finalmente:

__ Despejei uma bacia de lentilhas na cinza, se em duas horas catares tudo, poderás ir.

A moça correu para fora e chamou:

__ Lindas pombinhas e meigas rolinhas ajudem-me a catar,

as boas pra panelinha

as ruins para o papinho.


Imagem 05 - Acervo: Ludus Schola


Duas pombinhas brancas voaram pela janela da cozinha a dentro, e, logo após, as rolinhas, e por fim todos os pássaros do céu entraram em revoada e pousaram em volta da cinza. E as pombas inclinando as cabecinhas começaram: pique, pique, pique, e todos os outros pássaros as imitaram: pique, pique, pique, e foram enchendo a panela. Mal se escoara uma hora, já haviam terminado, e partiram ruflando as asas. A menina levou então a panela cheia à madrasta, ficou toda alegre e pensou: “Agora também poderei ir à festa”.

Mas a malvada disse:

__ De nada te adianta chorar. Não tens vestidos de festa e nem ao menos sabes dançar. Iremos sentir vergonha de ti.

E virando as costas saiu com as duas filhas.

Quando não havia ninguém em casa, Gata Borralheira foi até o túmulo da mãe e cantou:

“Aveleira minha,

Farfalhe e balance

Ouro e prata sobre mim lance”.


Imagem 06 - Acervo: Ludus Schola


Então o pássaro jogou-lhe um vestido prateado e dourado e sapatos bordados com seda e prata. Gata Borralheira vestiu tudo às pressas e foi à festa. A madrasta e as irmãs de criação não a reconheceram, julgando tratar-se de alguma princesa desconhecida, tão linda estava em seu vestido dourado. Nem pensaram na Gata Borralheira, pois ela deveria estar catando as ervilhas do meio das cinzas. O príncipe foi-lhe ao encontro e não permitiu a mais ninguém dançar com ela. Se alguém se aproximava para convidá-la, dizia:

__ Ela é o meu par – e não soltava sua mãozinha.

Gata Borralheira dançou até tarde e depois quis voltar para casa.

O príncipe porém lhe disse:

__ Vou também, quero acompanhar-te.


Imagem 07 - Acervo: Ludus Schola


Ele queria saber onde morava a linda moça. Ela, porém, escapou-lhe e escondeu-se no caramanchão. O príncipe esperou pelo pai da Gata Borralheira e queixou-se, e este mandou derrubar o caramanchão pensando: “Teria sido a Gata Borralheira?” Mas não encontraram ninguém.

Quando a madrasta e suas filhas voltaram, lá estava Gata Borralheira metida em seu camisolão sujo, ao lado da cinza e uma lúgubre luzinha a óleo bruxuleava ao seu lado. Gata Borralheira havia escapado rapidamente do caramanchão e correra para a aveleira. Tirara o lindo vestido, colocando-o sobre o túmulo da mãe, e o passarinho o levara. Depois, envergando o avental cinzento, voltara para a cozinha, junto da cinza.


Imagem 08 - Acervo: Ludus Schola


No dia seguinte, ao recomeçar a festa, e depois de já terem partido os pais e irmãs, Gata Borralheira foi à aveleira e disse:

“Aveleira minha,

Farfalhe e balance,

Ouro e prata sobre mim lance”.

Então o pássaro trouxe um vestido mais lindo ainda e quando a moça compareceu com ele à festa, ficaram todos boquiabertos. O príncipe, porém, já a esperava e não permitiu a ninguém dançar com ela.

Quando ficou tarde ela tentou novamente partir, mas o príncipe a seguiu para ver onde morava. Mas a moça fugiu e entrou pelo jardim atrás da casa. Lá se encontrava uma grande árvore carregada de lindas peras. Ela subiu rápida como um esquilo e escondeu-se entre os galhos e o rapaz não a achou.


Imagem 09 - Acervo: Ludus Schola


Ele esperou outra vez o pai da moça e disse-lhe:

__ A moça desconhecida escapou-me e creio ter-se escondido nesta pereira.

O pai pensou: “Teria sido a Gata Borralheira?” E mandando vir um machado derrubou a árvore, mas nada de Gata Borralheira.

Quando os outros voltaram, encontraram como sempre a moça na cozinha. Havia fugido pelo outro lado da árvore, e entregara ao passarinho da aveleira o vestido e os sapatos.

No terceiro dia, quando já haviam saído os pais e as irmãs, Gata Borralheira dirigiu-se novamente ao túmulo da mãe e disse à árvore:

“Aveleira minha,

Farfalhe e balance,

Ouro e prata sobre mim lance”.

E o pássaro jogou-lhe um vestido tão lindo e deslumbrante como nunca se vira, e os sapatinhos eram de ouro. Ao chegar à festa ninguém sabia dizer qualquer palavra, tamanha era a admiração. O príncipe dançou só com ela e se alguém se aproximava, dizia:

__ Ela é o meu par.

Quando ficou tarde ela tentou novamente partir. O príncipe quis segui-la, mas não pôde: escapou-lhe muito ligeira. O moço, porém, havia tido a ideia de um ardil e mandara derramar piche sobre toda a escadaria do palácio. Ao sair correndo o sapato esquerdo da Gata Borralheira ficou preso num degrau. O príncipe apanhou-o; era pequeno e delicado, todo de ouro. Na manhã seguinte levou-o ao pai dizendo:

__ Só com a dona desse pé quero casar-me. Mande procurá-la por todo o reino.

As duas irmãs alegraram-se, pois, tinham ambas pés bonitos e quando a mais velha levou o sapatinho para o quarto a fim de prová-lo, disse-lhe a mãe:

__ Não quer servir? Não faz mal, toma esta faca e faze um buraco no bico do sapato. Não precisarás mesmo andar a pé, pois agora serás rainha.

Foi o que a moça fez com grande dificuldade e embora o pé apertado mal lhe permitisse dar alguns passos. Como servisse, o príncipe a levou para o palácio. No caminho, porém, ao passar pelo túmulo, as duas pombinhas pousadas na aveleira puseram-se a arrulhar:

“Ruque di gu, ruque di gu,

O sapato é pequeno,

Que pena, que pena”.

Então o príncipe olhou para os pés da moça e viu o dedão saindo pelo buraco do bico, inchado e vermelho e todo o pé mais parecia um pão saído do forno. Puxando as rédeas do cavalo, fez meia volta e levou-a novamente para casa, pedindo para chamarem a outra irmã. Essa por sua vez, levou o sapato para o quarto para experimentar. Os dedos serviam, mas o calcanhar não entrava. Disse então a mãe:

__ Corte um pedaço atrás e entrará. Não precisarás mesmo andar, pois serás agora rainha.

Foi o que a moça fez com grande dificuldade, enfiando depois o pé. O sapato serviu e o príncipe levou-a à garupa. Mas ao passar pela aveleira arrulharam as pombinhas:

“Ruque di gu, ruque di gu,

O sapato é pequeno,

Que pena, que pena”.

Olhando para os pés da moça o príncipe horrorizado viu-os inchados e vermelhos, estourando pelo buraco feito no calcanhar. Virou o cavalo e levou a falsa noiva de volta à casa. E queixou-se por não ser a verdadeira.

Não é a que procuro, disse ele, não tendes outra filha?

__ Não, disse o pai, há só a filha de minha primeira esposa, mas essa nunca poderia ter estado no baile; está sempre suja e trabalha na cozinha.

O príncipe pediu para que a fossem chamar, mas a madrasta respondeu:

__ Não é possível, a menina anda suja demais, não pode ser vista.

Mas como o moço insistisse muito, foram chamá-la. Gata Borralheira lavou as mãos e o rosto e foi inclinar-se defronte do príncipe, e esse entregou-lhe o sapato de ouro.

A moça sentou-se num banquinho e, tirando o pé do grosseiro tamanco, calçou o sapatinho. Serviu como uma luva e quando ela se levantou e encarou o príncipe esse reconheceu a linda moça com quem dançara e exclamou:

__ Ela é a minha verdadeira noiva!


Imagem 10 - Acervo: Ludus Schola


A madrasta e as duas irmãs assustaram-se e empalideceram de susto. O príncipe tomou Gata Borralheira, colocando-a a cavalo e partiram para o palácio. Ao passar pela aveleira as duas pombinhas puseram-se a arrulhar:

“Fiu, fiu, o sapato serviu!

Fiu, fiu, o sapato serviu!”

Vieram esvoaçando e pousaram sobre os ombros de Gata Borralheira, uma à direita e a outra à esquerda.

Ao ser celebrado o casamento com o príncipe as duas irmãs, muito falsas, pretenderam tomar parte na alegria geral. Quando o casal se dirigia para a igreja a mais velha postou-se à direita da noiva e a mais moça à sua esquerda. Ao sair da igreja ficou a mais velha à esquerda e a mais moça à direita. O príncipe, porém, que não era bobo, não lhes permitiu tomar parte na festa, e além disso condenou-as daí em diante a andar para sempre descalças.



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