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O Rei Sapo - Contos dos Irmãos Grimm

 


Nos velhos tempos, quando bastava desejar-se alguma coisa para obtê-la, havia um rei com muitas filhas, todas formosas; mas a caçula era tão linda a ponto de o próprio sol se alegrar quando lhe batia no rosto, ele que vê tanta coisa pelo mundo. Perto do castelo ficava uma floresta escura e, junto a uma velha árvore, havia um poço. 

Quando fazia muito calor, a princesinha ia refrigerar-se junto ao poço. Lá ficava, brincando com uma bola de ouro que jogava para o alto e apanhava novamente. Era o seu brinquedo favorito.

Aconteceu porém, que certa vez a bola não lhe caiu nas mãozinhas estendidas, mas no chão e de lá foi rolando, rolando até afundar na água. A princesa seguiu-a com os olhos, mas ela havia desaparecido. O poço era muito fundo e a princesa começou a chorar.... Chorava cada vez mais alto até que ouviu uma voz. __ Por que choras assim? Até uma pedra teria o coração partido de te ouvir!

Voltou-se na direção da voz e viu um sapo cuja cabeça feia emergia da água.


Imagem 01 - Acervo: Ludus Schola



++ Rapunzel - Contos dos Irmãos Grimm

__ Ah! és tu, velho sapo? Choro pela minha bola de ouro que desapareceu no fundo desse poço.

__ Consola-te e não chores mais, disse o sapo, pois posso ajudar-te, mas o que me darás em troca?

__ Tudo que quiseres, querido sapo, meus vestidos, as pérolas e pedras preciosas que possuo e ainda mais a minha coroa de ouro.

O sapo respondeu:

__ Teus vestidos, tuas pérolas e pedras preciosas, e tua coroa de ouro não me interessam, mas se quiseres tornar-me teu amiguinho e companheiro de folguedos... Se eu puder sentar ao teu lado à mesa e comer do teu pratinho de ouro, beber no teu copinho e dormir na tua caminha, se me prometeres tudo isso, então vou lá no fundo e trago de volta a tua bola de ouro.

__ Como não, disse ela, prometo tudo que quiseres, contanto que tenha novamente meu brinquedo favorito. Mas consigo mesmo pensava, quanta prosa está contando esse sapo convencido! Está sempre dentro d’água com seus iguais e pensa que pode tornar-se companheiro das criaturas humanas.

Mas o sapo, considerando o trato feito, afundou a cabeça e desapareceu. Em poucos segundos estava de volta com a bola na boca, jogando-a sobre a relva. A princesinha toda contente apanhou-a e saiu correndo para o palácio.

__ Espere, espere, gritava o sapo, leve-me também, não posso correr como você.

Mas de nada lhe adiantou fazer “quack, quack” com toda a força dos pulmões, ela não ouviu e esqueceu prontamente o pobre sapo que desceu de novo ao fundo do poço.


Imagem 02 - Acervo: Ludus Schola


No dia seguinte, estando a princesinha à mesa com o rei e toda a corte, ouviu-se algo subindo os degraus de mármore da escada, “plitch, platch, plitch, platch”. Bateram à porta.

__ Caçula do rei, abre-me a porta. Ela correu para ver quem era, mas, ao abrir, viu diante de si o sapo. Então bateu a porta e voltou a sentar-se em seu lugar com o coração cheio de medo.

O rei, percebendo seu susto, perguntou:

__ Minha filha, estás assustada? Será algum gigante, que está aí para levar-te?

__ Oh, não, respondeu ela, não é um gigante, mas um sapo antipático.

__ E o que quer o sapo?

__ Ah, querido pai, ontem quando estava na floresta, brincando junto ao poço, minha bola de ouro caiu na água. Chorei tanto que o sapo, penalizado, a foi buscar e, como fizesse questão, prometi-lhe que poderia tornar-se meu amiguinho. Mas nunca pensei que ele saísse da água. Agora está aqui e quer entrar.


Imagem 03 - Acervo: Ludus Schola


Enquanto isso, bateram pela segunda vez e ouviu-se:

Esqueceste a promessa feita

À beira do poço profundo,

Esqueceste que o meu amor

É o maior amor do mundo.

__ Caçula do rei, abre-me a porta! Esqueceste a promessa feita à beira do poço?

Então disse o rei:

__ O que prometeste, deves cumprir, vai e abre-lhe a porta.

Ela entreabriu a porta e o bicho veio saltando até junto da princesa e gritou:

__Levanta-me até ti!


Imagem 04 - Acervo: Ludus Schola


Ela hesitou mas o rei ordenou-lhe que obedecesse.

Na cadeira, o sapo pediu para ser colocado sobre a mesa e, então,

disse:

__ Agora empurra-me o pratinho de ouro e vamos comer juntos. Isso ela fez, mas a contragosto. O sapo comeu com apetite, mas a princesinha sentia cada bocado ficar-lhe entalado na garganta.

Finalmente disse o bicho:

__ Já comi bastante, estou cansado, agora carrega-me para o teu quarto e apronta a caminha de lençóis de seda que vamos dormir.

A princesinha começou a chorar; sentia medo daquele sapo frio. Mal se atrevia a tocá-lo, agora iria levá-lo para a sua caminha limpa! Porém, o rei encolerizou-se e ordenou:

__ Não podes desprezar quem te ajudou numa hora de necessidade.

Ela, então, apanhou o sapo com a ponta de dois dedos, levou-o para cima, colocando-o num canto. Mas ao entrar na cama ouviu-o que vinha rastejando e dizia:

__ Estou tão cansado como tu e quero dormir. Ajuda-me a subir senão conto ao teu pai.

Então, furiosa, pegou-o, lançando-o contra a parede com toda a força.

__ Agora terei sossego, sapo horroroso!

Mas ao cair, não era mais um sapo, porém um príncipe de lindos olhos amáveis. Por ordem do pai iria ser seu amigo e esposo. Ele contou ter sido transformado por uma bruxa má e ninguém o poderia ter tirado do poço senão ela e amanhã voltariam ao seu reino.




Então ambos adormeceram e na manhã seguinte, quando o sol os despertou, chegou uma carruagem com seis magníficos cavalos brancos atrelados por correntes de ouro, com penas de avestruz à cabeça; atrás estava o fiel Henrique, criado do príncipe herdeiro.

O fiel Henrique ficara tão desgostoso com a desgraça do amo que fizera prender três fitas de aço em volta do peito, para o coração não lhe estourar de mágoa e tristeza. Após ajudar ambos a tomarem o carro, Henrique voltou ao seu lugar, cheio de alegria.

Depois de terem percorrido parte do caminho, o príncipe ouviu um estalo, como se algo se tivesse quebrado. Virou-se então e disse:

__ Henrique, o carro se quebra...

__ Não, senhor, o carro não se quebra, uma fita se solta, libertando meu coração.

Mais uma vez ouviu-se um estalo, e mais outra vez, e cada vez o príncipe julgava ser o carro, mas eram apenas as fitas de aço libertando o coração do bom criado, agora muito feliz.

 

 


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