Os Tuaregues

 


Em pleno deserto do Saara, no vasto território que fica entre o lago Chade (em Chade) e as cidades de Gadames (na Líbia) e Timbuctu (no Mali), vivem os estranhos tuaregues. 

Não é por causa do rosto velado que eles permaneceram quase desconhecidos até 80 anos atrás, e sim porque eram temidos: antigamente, saqueavam as caravanas do deserto e desapareciam misteriosamente. Nos fins do século XV, os tuaregues eram autênticos bandidos da areia: dominavam os oásis e, consequentemente, as rotas das caravanas. Para que a caravana passasse, livre de assaltos, cobravam tributos sobre o total das mercadorias transportadas. 


IMAGEM 01 - Acervo Ludus Schola



Faziam também um pouco de comércio: uma das rotas mais procuradas era a do oásis de Tagaza, onde havia grande quantidade de sal, precioso na época. Bolsas cheias de ouro em pó eram trocadas por uma simples pedra de sal em Timbuctu, onde uma pulseira valia quatro escravos. Nessa época (descobrimentos marítimos), tão desfavoráveis eram as condições de travessia do Saara, dominado pelo Islam e pelos tuaregues, que as expedições tinham de contornar todo o continente. Essa foi uma das razões do périplo africano, graças ao qual se descobriu o caminho das Índias. Com a mudança das condições políticas do Norte da África, a vida dos tuaregues alterou-se sensivelmente.

 

A raça

 

Os tuaregues relacionam-se etnicamente com os berberes da cadeia montanhosa do Atlas. Constituem a população de maior estatura da África do Norte. Têm cabeças longas, cabelos negros e ondulados; algumas tribos usam a cabeça raspada, com apenas uma trança caída sobre o ombro. No rosto alongado, um queixo agudo e nariz ligeiramente aquilino, lábios finos, olhos pequenos e fundos, protegidos por pálpebras cuja parte superior é pregueada e saliente: ótima defesa contra a natureza.

 

A família
 

Uma das mais unidas do mundo muçulmano, a família tuaregue não é poligâmica. Embora convertidos ao islamismo desde o século VII, eles mantêm seus hábitos monogâmicos. A mulher, em posição igual ao homem, não participa das caravanas: dirige o trabalho dos servos e cuida das crianças. Fabrica tendas e trança os asabers, longas esteiras bordadas com couro e usadas nas tendas. Cada pessoa cuida de seus objetos, que não são muitos: quando a pastagem escasseia, é preciso mudar depressa.

 

A sociedade

 

Os tuaregues dividem-se em classes sociais comparáveis aos nobres, vassalos e servos da Idade Média. Cada grupo é governado por um senhor com a corte de nobres, proibidos de casar fora de sua classe. Os vassalos os obedecem em troca de proteção e distinguem-se etnicamente através da pele mais escura. Os artesãos trabalham o couro, o ferro e a madeira, mas são desprezados, apesar de sua utilidade para a tribo. Os servos ou antigos escravos realizam o trabalho pesado e em geral são negros.

Antes, este povo nômade e guerreiro era inimigo tradicional dos árabes e dos grupos negros da região, dos quais apresavam escravos. Hoje, embora contra sua vontade, possui a cidadania de muitos países diferentes: Argélia, Mali, Nigéria, Chade, Líbia e outros. Com o estabelecimento de fronteiras políticas, a vida nômade tornou-se mais difícil. Por isso, os tuaregues agrupam-se, instalam-se e mudam sua organização social. Na medida do possível, conservam os costumes cuja origem se perdeu no tempo. Impondo respeito com o véu – lissam – que lhes cobre o rosto, continuam assegurando sua subsistência por meio de remanescentes escravos, que extraem o sal e trabalham a terra. Ao lado do trigo, o comércio do sal até hoje é sua principal atividade econômica. Trocam-no por tâmaras e milho, seu alimento preferido.

Mas a maior riqueza é mesmo o camelo, um companheiro inseparável. Nas duas raças principais de camelos – o de pelo escuro, bom para dar leite, e o mehari de pelo claro, bom para correr na areia – os tuaregues baseiam sua escala de bens materiais. O camelo transporta tudo o que é necessário para a travessia do deserto, inclusive sua própria água e alimentação, além de proteger (com seu corpo) o homem durante um simum (tempestade de areia). Assim, numa caravana de sal, entre cinco camelos, apenas um transporta o produto. Em toda a viagem, a vida depende dos meharis. Os tuaregues modernos só assaltam inimigos declarados, mas por via das dúvidas carregam sempre suas armas: largas lanças de metal, espadas afiadas, escudo de pele de antílope. Seu código de honra lembra o dos cavaleiros medievais: palavra dada é dívida de sangue. Portanto, honrada sempre.


IMAGEM 02 - Acervo Ludus Schola: 


Quando adotam a vida sedentária, os tuaregues habitam em aldeias cujas casas são semelhantes às que aparecem nos oásis do Saara: retangulares, com teto e terraço, construídas com ladrilhos ou pedras. As casas dos nômades são cabanas ou tendas desmontáveis, com dois metros de altura, cobertas por peles costuradas e sustentadas por um mastro central.


IMAGEM 03 - Acervo Ludus Schola


Vivenda dos tuaregues nômades: tenda de pelo de camelo e cabana circular desmontável.
IMAGEM 04 - Acervo Ludus Schola


Seu idioma é uma língua berbere – o tamahaq – que constitui o elo mais forte entre os 900 mil tuaregues que povoam o Saara, divididos em tribos dispersas. O alfabeto, tifinar, vem de tão longe que não se sabe sua origem: consta apenas de consoantes e é difícil de ler. Pode ser escrito da esquerda para a direita como o nosso, no sentido contrário como o árabe ou verticalmente como o chinês.


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A educação


As crianças, educadas pelas mães, a partir de 9 anos moram em tendas próprias. À medida que crescem, aprendem a limpar-se sozinhas com areia seca, como os mais velhos: no deserto, é bem difícil um banho de água. Mesmo assim, a pele apresenta manchas azuis, por causa das roupas tingidas com azul vivo que desbota. Também se pratica a maquilagem: um pó ocre que ajuda a afastar os insetos. Ao contrário das muçulmanas, as senhoras tuaregues não cobrem o rosto: só os homens.

 

A roupa


As mulheres usam uma ampla faixa de tecido enrolada no corpo, cobrindo a cabeça com uma manta e os pés com sandálias de couro, reviradas na ponta para melhor andar na areia. Joias e amuletos finamente trabalhados são usados pela classe elevada. Aliás, o tuaregue nobre pode ser considerado o homem mais vestido do mundo: excetuando pés, mãos e uma abertura diante dos olhos, todo o corpo é cuidadosamente coberto com largas túnicas. O véu protetor não é tirado nem para dormir.

 

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O amor


Nas reuniões de jovens, as moças cantam, acompanhando-se no amzed, espécie de violino de uma só corda. Aliás, em geral são as mulheres que promovem festas, onde tocam, dançam e recitam poemas: privilégio seu, pois os homens não podem compô-los nem se esforçam por aprendê-los. Para cortejar uma jovem, o rapaz manifesta seu interesse por ela segurando sua mão durante noites seguidas, até o momento encantador do beijo tuaregue: colocam nariz contra nariz, para "respirar juntos".





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