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Senhora Holle

 


Uma viúva tinha duas filhas: uma delas, bonita e trabalhadeira; a outra, feia e preguiçosa. Preferia, porém, de muito, a segunda, pois era a sua verdadeira filha; assim, a primeira tinha de fazer todo o serviço caseiro e ainda servir de criada. Dia a dia precisava sentar-se junto ao poço e fiar até os dedos lhe sangrarem.

Aconteceu uma vez, estando o fuso cheio de sangue, ela abaixar-se para lavá-lo. Este escapou-lhe então das mãos e afundou no poço. Aos prantos, a menina correu a relatar o sucedido à madrasta. Furiosa, a mulher disse-lhe:

__ Deixaste cair o fuso, pois agora vá buscá-lo.

Desesperada, a filha correu de volta ao poço e sem saber como agir pulou dentro d’água à sua procura. Perdeu os sentidos, e quando os recuperou encontrava-se num gramado ensolarado, cheio de flores. Foi andando e viu um forno cheio de pães, que gritavam com grande alarido:

__ Acudam, acudam. Tirem-nos daqui senão vamos todos queimar, há muito já estamos cozidos!


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A menina tomando a pá do pão, retirou todos os filões do forno.

Continuou o caminho, chegando a uma macieira carregada de frutos.

__ Sacode-me, sacode-me, por favor, minhas maças já estão todas maduras!

A menina parou e, com todas as suas forças, sacudiu a árvore até o chão ficar coalhado de frutos vermelhos, depois continuou novamente a andar.



fonte: acervo Biblioteca Mística de Motosofia "Hipácia de Alexandria"


Chegou finalmente a uma casinha de onde espiava uma velha com dentes tão grandes que a deixou assustada. Quis fugir correndo, mas a velha chamou-a:

__ Tens medo, querida criança? Fica aqui comigo, se fizeres bem todo o teu serviço, terás uma boa vida. Precisas tomar tento ao fazer minha cama: deves sacudi-la bem para as penas voarem, assim nevará na terra; sou a senhora Holle.

Como a velha mostrara bondade, a menina resolveu entrar a seu serviço, cumprindo com todas as obrigações e sacudindo sempre a cama até que as penas esvoaçassem como flocos de neve. Em troca comia bem e levava uma boa vida.

Depois de algum tempo, apesar dos bons tratos, a menina começou a sentir-se triste, sem saber bem por quê. Aos poucos compreendeu estar sentindo saudades de casa, embora estivesse sendo tratada melhor do que lá.


fonte: acervo Biblioteca Mística de Motosofia "Hipácia de Alexandria"


Finalmente disse à velha:

__ Sinto muitas saudades de casa, e embora seja feliz aqui, preciso voltar.

A Sra. Holle acompanhou-a até o portão. Ao atravessá-lo, caiu sobre a menina uma chuva de ouro enquanto a boa velha lhe dizia:

__ Tudo isso é teu por teres sido tão diligente e compreensiva; também devolveu o fuso que havia caído dentro do poço. O portão fechou-se novamente e a moça viu-se no mundo, a pouca distância da casa paterna. Ao chegar ao quintal, o galo estava empoleirado no poço e começou a cantar:

“Qui-qui-ri-qui!

Qui-qui-ri-qui!

A menina de ouro Está de volta aqui!”

A menina foi ter com a mãe e, por estar coberta de ouro, foi bem recebida por ela e pela irmã.

Contou-lhes, então, tudo o que se havia passado, enquanto a madrasta ouvia e pensava num modo de fazer a outra filha ter a mesma sorte. Assim, mandou que esta se sentasse, por sua vez, junto ao poço e ficasse fiando. Para que os dedos sangrassem, picou-os com espinhos e, sujando o fuso, jogou-o dentro do poço e fê-la pular atrás.

Como a primeira, desembocou no bonito gramado e seguiu o mesmo caminho. Ao passar pelo forno ouviu os chamados aflitos dos pães:

__ Acudam, acudam, tirem-nos daqui senão vamos todos queimar. Mas a preguiçosa respondeu:

__ Eu não, não estou para sujar meus dedos! e continuou o caminho.

Logo chegou à macieira que gritava:

__ Sacode-me, sacode-me, minhas maçãs já estão todas maduras

Porém ela respondeu:

__ Imagina só, não desejo uma maçã me caindo na cabeça, e prosseguiu.

Ao chegar à casa da Sra Holle, não teve medo pois já sabia dos seus dentes compridos e logo se empregou lá. No primeiro dia foi muito diligente e atendia aos desejos da Sra Holle, pois pensava em todo ouro que iria receber. No segundo dia começou a vagabundear, no terceiro mais ainda e finalmente nem queria mais levantar.

Não arrumava mais a cama da patroa como devia, nem sacudia os cobertores para livrá-los das penas que costumam sair pelas malhas.

A Sra Holle deu o basta e despediu-a. A preguiçosa ficou muito satisfeita, pois pensou receber também a chuva de ouro. Depois conduziu-a ao portão, mas quando a preguiçosa lá se encontrava foi-lhe despejado um balde de piche em vez de ouro.


fonte: acervo Biblioteca Mística de Motosofia "Hipácia de Alexandria"


__ Essa é a recompensa pelos teus serviços, disse a Sra Holle, fechando o portão.

A preguiçosa voltou para casa toda coberta de piche, e o galo empoleirado no poço começou a cantar:

“Qui-qui-ri-qui!

Qui-qui-ri-qui!

A menina de piche Está de volta aqui!”

O piche, porém, ficou-lhe tão grudado que nunca mais quis sair.




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