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A Lua - Arcano XVIII - Lição de Tarot (Arcanos Maiores): simboliza a imaginação e fantasia humanas, os desejos reprimidos à luz do dia

 


Segunda Fase

VIA ÚMIDA

VIº

Caminhos da Evolução

 

Tzadek (Aquário)

CREPUSCULUM

Hierarchia Occulta – Hostes Occulti – Pericula Occulta

A representação este arcano sofreu muitas variações; assim, no de Mantegna aparece a clássica imagem da Lua cruzando o Céu sobre seu carro; no de Visconti-Sforza é uma figura feminina sustentando quarto lunar; no de Carlos VI, nos apresenta dois astrólogos calculando a posição da Luna; no de Minchiate a semelhança do de Carlos VI também aparecem um ou dois astrólogos; e no de Marselha se inicia a separação do desenho em três espaços distintos: no superior o Céu com a Lua, o intermediário, à Terra com dois cães uivando entre duas torres, e no inferior à água com um caranguejo em uma lagoa, o que passa a ser a representação dominante até nossos dias.

Mais adiante serás exposto o simbolismo da Lua, dos cães com as torres, e da água e o caranguejo; agora devemos destacar outro detalhe importante: nos Tarots anteriores ao de Marselha, A Lua aparece em quarto minguante, enquanto a partir do de Marselha passa a se apresentar no quarto crescente. Se temos em conta a assimilação clássica dos quartos lunares a Jano bifronte, o deus das portas da passagem, das transições entre o passado e o porvir, de um estado a outro, de um universo a outro, esta mudança equivale à passagem do Jano negativo ao Jano positivo, da porta do Inferno (Janua Inferni) à porta do Céu (Janua Caeli), de Hécate a Selena[1], do destino inexorável ao crescimento fecundo.

 

Descrição

 

Tendo em conta que A Lua é um astro passivo que se limita a refletir a luz solar, devemos modificar o simbolismo das cores adotando também um significado passivo e reflexo; assim, o azul, mais que o espírito ou a espiritualidade se refere à alma e ao psiquismo; o amarelo, mais que à mentalidade e à imaginação, o vermelho a emoções e não as paixões, e o branco a ingenuidade ao invés de pureza. Feita esta definição, passemos à análise da lâmina.

Na parte superior aparece um crescente lunar azul rodeado por vinte e nove raios, sete brancos, sete azuis e quinze vermelhos, e da mesma se desprendem dezenove lágrimas invertidas, oito azuis, cinco amarelas e seis vermelhas. Tudo isso se refere à influência da Lua sobre à Terra, pois, o influxo que nos chega do alto só se representa em forma de esferas, flocos ou lágrimas. Na Torre o referido influxo era indiferenciado, não víamos de onde surgia, por isso estava formado por esferas; no Sol, como será visto, toma a forma de lágrimas que caem separados; aqui as lágrimas aparecem invertidas, como se fossem a imagem reflexa das emitidas pelo astro-rei. Mas se tomamos A Lua como símbolo do astral, poderia referir-se à interação entre os planos astral e físico, e a referida influência se exerceria em uma direção graças aos raios lunares e pelo contrário por lágrimas invertidas.


Imagem 01 - Acervo: Biblioteca Mística de Motosofia
Arcano Maior A Lua - Tarot de White.


No pano intermediário vemos dois cães de cor carne e de perfil, cara a cara, com a língua para fora e como se estivesse uivando, em clara referência aos instintos materiais inferiores, origem da maioria dos problemas humanos; o chão acidentado sobre o que se encontram revela que se apoiam sobre o poder e a imaginação, e as quimeras da mente, do mesmo modo que as duas torres amarelas e as dois tufos de grama da mesma cor, se referem às criações transitórias e artificiais do referido mundo ilusório e à fertilidade da imaginação.

No plano inferior, e dentro de um lago azul listrado de preto, aparece um grande caranguejo, símbolo de Câncer, signo zodiacal regido pela Lua, pondo num primeiríssimo plano o papel do psiquismo indiferenciado, do que agora foi chamado o inconsciente coletivo.

 

Simbolismo

 

O 18 é um número que reverte ao 9, pois 18 = 1 + 8 = 9, o que equivale a gestação e finalidade; ao Mago (1) diante da Justiça (8), o qual conduz à solitária busca interior do Ermitão (9). Mas também é igual a 10 + 8, o equilíbrio que segue a um ciclo completo, uma paralização, um estado de inércia temporal, e em outro sentido é 3 x 6, a geração do pecado.

Vimos que os dois arcanos anteriores se referiam ao mundo material (A Torre) e ao mundo divino (A Estrela) em sua relação com o homem; agora nos encontramos diante de um mundo intermediário que nos relaciona e por ser uma imagem refletida os deforma e subjetiva. É assim como este arcano representa e simboliza a imaginação e fantasia humanas, os sonhos infantis quiméricos da noite onde habitam os desejos, obsessões e instintos primordiais reprimidos à luz do dia.

A simples observação da lâmina nos revela com toda claridade seu simbolismo esotérico e nos faz lembrar umas passagens da obra de Plutarco De facie in orbe lunae, nos dizem:

A lua é a morada dos homens depois da morte, onde levam uma vida que não é divina nem bem-aventurada, mas isenta de preocupações até sua segunda morte, já que o homem deve morrer duas vezes. O homem é um ser composto, mas não só de duas partes, corpo e alma, senão de três: corpo, alma e espírito. É tão errôneo considerar o espírito como uma parte da alma, como acreditar que a alma forma parte do corpo. Tão superior é o espírito sobre a alma como o a alma sobre o corpo. Três elementos constituintes compõe o ser humano. A Terra fornece o corpo; a Lua a alma; e o Sol o espírito; e isso em harmonia com o que acontece na natureza, onde a Lua recebe a luz do Sol. Quando o homem morre, começa por deixar seu corpo à Terra, mas persiste o laço entre alma e espírito. A separação entre corpo e alma se efetua rápida e violentamente, mas entre a alma e o espírito se produz lentamente. É a segunda morte.

 

Assim, segundo Plutarco, a Lua é a morada da alma humana entre a morte física e a segunda morte, que será prelúdio de um novo renascer. Se agora observamos a lâmina sob este ponto de vista, concluiremos que as lágrimas invertidas são as almas que “sobem” da Terra à Lua. Também daremos conta que a Lua simboliza o plano astral da criação.

Já foi mencionando anteriormente a analogia da Lua com Jano bifronte, as portas do Céu e o Inferno, com Selena e Hécate. Na lâmina, esta analogia fica clara pelas duas torres que formam uma porta, a passagem entre ambas, que pode conduzir a qualquer dos referidos mundos; astrologicamente referidas passagens vêm definidos respectivamente pelos signos de Câncer e Capricórnio, nos quais a porta de Câncer, o solstício de verão, conduz ao calor à vida terrestre, e a de Capricórnio, o solstício de inverno, ao frio, a morte e a outra vida. Pela representação gráfica do caranguejo, símbolo de Câncer, e da Lua no quarto crescente, é indubitável que a referência da lâmina é a porta da vida na Terra e a faz amável de Selena; a encarnação do espírito e da matéria.

Contudo, ainda quando preferencialmente se refere à face luminosa da Lua, a seu aspecto mais positivo, não deve esquecer-se de que ambos os rostos são inseparáveis e Hécate se esconde atrás de Selena, pelo qual que este arcano também previne dos perigos inerentes ao mundo astral e às potências do sonho e da noite.


Leia também: A Estrela - Arcano XVII - Lição de Tarot (Arcanos Maiores): é a totalidade atuando sobre a matéria e o espírito

 

Simbolismo Adivinhatórios Geral

 

Quando se refere pessoas, revela que se trata de pessoas emotivas, sonhadoras e passivas, mas bem superficiais, excessivamente dependentes ou preocupadas por questões familiares, domésticas, ou simplesmente por razões relativamente inconsequentes; ou pessoas com moléstias físicas ou psíquicas. Quando se trata de mulheres deveremos acrescentar a tudo isto um profundo sentimento maternal, mas em todos os casos passando por umas crises de inquietação e indecisão, de descenso na sua capacidade de reação.

Quando não se refere a pessoas, revela superficialidade, estados emotivos, passividade, desilusões, caprichos fantasias, credulidade, indiscrição, excesso assoberbado de imaginação, impressionabilidade, falsa segurança, multiplicidade de pequenas coisas, situações equivocadas, tendência a deixar-se levar pelos instintos primários, como a gula, a preguiça, a sensualidade; e em alguns casos, sentimento de culpa, melancolia, traumas, tristezas profundas, complexos, alucinações e tendência à mediunidade e a vidência passiva.

Invertida, as tendências se tornam mais agudas e converte em doenças, como, por exemplo, a sensibilidade e impressionabilidade, e a passividade escondida em apatia, com o qual o perigo de erros, brigas, calúnias, fraudes, ação de inimigos ocultos, desonestidades, falta de sinceridade e incapacidade de agir ou tomar ações diante de situações e aumento significativos dos problemas.

 

Significados Adivinhatórios Concretos

 

Saúde – Arcano que representa a fecundidade e gestação, se refere aos líquidos orgânicos, a vida vegetativa, o psiquismo e o inconsciente coletivo. Também se refere ao estado dos órgãos do corpo, mas não a sua vitalidade. É por isso que quando bem acompanhada indicará um excelente estado e em uma mulher pode anunciar uma gravidez ou amamentar, ou criar um filho, enquanto com cartas negativas revelará problemas devidos quase sempre a uma má circulação dos líquidos orgânicos, como o sistema linfático, as vias lacrimais, os sucos digestivos, as secreções glandulares, etc.; em consequência também pode referir-se à hidropisia[2], a obesidade e a astenia[3].

Invertida acentua as deficiências orgânicas já revisadas e sua ação sobre o sistema digestivo, em especial no estomago, e nas mulheres muitas vezes afeta o sistema mamário. Este arcano também só aparece quando existem crises de histeria, epilepsia, neurastenia, estados depressivos e problemas de sono.

Mentalidade – Não é um arcano de mentalidade e quando se refere à mesma o faz no sentido de imaginação, fantasia, curiosidade, indiscrição e memória visual, mas sempre de forma superficial e propensa a erros de apreciação por excesso de credulidade e tendência a deixar-se enganar.

Invertida, a mente se perde em devaneios e quimeras, acentuando, contudo, todos os defeitos anteriormente já citados.

Sentimentos – Mais do que sentimentos se refere a sensações, ao sentimentalismo, à lágrima fácil, a desordem, aos ciúmes, às relações sentimentais superficiais e mutáveis.

Invertida, a instabilidade sentimental se faz mais acusada, os desenganos amorosos são frequentes e os ciúmes irracionais se fazem presente em ato, mas são ciúmes passivos, lacrimais, bastante neuróticos.

Família – O que mais pesa neste sentido é o sentimentalismo e o amor ao lar e aos filhos. É talvez no que mais positivamente se manifesta este arcano.

Invertida, equivale à desordem e inclusive a falta de higiene no lar e a família.

Amizades – Abundância de amizades entre as quais se goza de simpatia e popularidade; não obstante, mais que de amigos se trata de conhecidos, de amizades superficiais que aparecem e desaparecem sem deixar rastro de sentimento por sua perda, e com quem gosta de se envolver em fofocas e críticas impiedosas.

Invertida, as amizades apesar de superficiais são de curta duração e quase sempre se perdem por um próprio temperamento lunático que é gatilho para se indispor com as mesmas por qualquer bobeira ou indiscrição.

Trabalho – Indica trabalhos que necessitem de muita imaginação, memória visual e facilidade para contatar com o grande público, nos quais se for acompanhada de cartas favoráveis ou neutras indicará êxito e popularidade.

Invertida, o excesso de imaginação e fantasia, assim como a preguiça e a apatia, geralmente são fatais e acarreta inúmeros erros e problemas.

Dinheiro – Não é nada abundante, mas também não está faltando e se gasta conforme se ganha, embora geralmente tenda para pequenas economias domésticas.

Invertida, se gasta mais que o devido em bugigangas, peças de fantasia e moda, apesar disso, a sua seleção nem sempre é correta.

 

Meditação sobre este Arcano

 

Já foi dito anteriormente a identificação deste arcano com o plano astral geralmente e com o corpo astral no particular, com aquele mundo mutável e ilusório em que emoções, sensações e instintos se fundem para gerar entidades dotadas de uma vida talvez irreal e ilusória, mas que habitando no profundo de nosso inconsciente é o motor da maioria daqueles atos que marcamos de irracionais ou instintivos.

Na árvore-da-vida, o caminho que vai de Kéter a Malkut forma uma cruz de três pontas horizontais com os sendeiros quartos, nono e décimo sétimo, que se correspondem respectivamente com  O Imperador, A Força e A Lua, sendeiros que caminhos nos limites, as bases em se sustentam os mundos do espírito, da individualidade e da personalidade; mas, ao mesmo tempo, sendeiros de um grande poder potencial, baseados no quarto, O Imperador, na inteligência; o do nono, A Força, na vontade; e o do décimo sétimo, A Lua, no instinto.


Imagem 02 - Acervo: Biblioteca Mística de Motosofia
Arcano Maior A Lua, representado pelo Tarot das Bruxas.


É talvez por isso que a cruz de três travessões ou cruz papal é o símbolo da mais alta hierarquia e da iniciação completa.

Para alcançar uma evolução harmônica, para deixar aberto o canal ascendente que vai de Malkut a Kéter, é necessário conseguir um perfeito equilíbrio entre os dois travessões extremos: o quarto e o décimo sétimo, a inteligência e o instinto.

Quando domina a inteligência podem cometer-se os maiores disparates, porque ao analisar um problema, o menor erro na abordagem ou nos dados iniciais conduz inexoravelmente ao desastre, do mesmo modo que se domina o instinto, podem cometer-se verdadeiras loucuras. Portanto, se ambos, inteligência e instinto, trabalham juntos, sem se anular um ao outro, o instinto permitirá ir modificando o rumo das decisões e corrigir os possíveis erros de raciocínio lógico, enquanto a inteligência evitará os impulsos irracionais instintivos.

Porque não devemos esquecer que na árvore-da-vida, Daat e Yesod eram os dois polos superior e inferior da psique, por isso, o instinto é o polo inferior da intuição, sua contraparte inferior, a intuição material, por assim dizer, de alguma forma.

Depois do exposto não resta a menor dúvida na atribuição da Lua a Yesod e ao décimo sétimo sendeiro cabalístico, assim como a Lua para a astrologia.


Saiba mais: Aristóteles - História da Filosofia Antiga

 



[1] É a deusa da Lua na antiguidade grega.  Os termos como selenofobia consiste no medo patológico e pânico pela lua, principalmente a lua cheia; e selenofilia consiste no amor incomum pela lua, porém, sem caráter patológico.

[2] Refere-se ao derramamento de líquido seroso em tecidos ou nas cavidades do corpo.

[3] Corresponde a um termo empregado na medicina para descrever com sintoma uma fraqueza orgânica, sem diminuir a capacidade muscular.


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