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Branca de Neve - Contos dos Irmãos Grimm

 


Era inverno e a neve caía. Do céu rodopiavam flocos parecendo leves plumas. A rainha cosia junto ao caixilho de ébano da janela. Distraída, picou-se no dedo e algumas gotinhas de sangue rubro pingaram sobre a neve. Enlevada com o contraste das cores. pensou: Quem me dera ter uma filha cujos cabelos tivessem a cor do ébano, cuja pele fosse como a neve e cujas faces tivessem esse rubor de sangue.

E de fato teve uma filhinha exatamente como desejara e, por isso mesmo, apelidaram-na de Branca de Neve. Infelizmente, logo depois a rainha morreu. Um ano mais tarde, o rei casou-se novamente com uma mulher muito bonita, porém pretensiosa e altiva, não suportando que alguém lhe disputasse a beleza. Possuía um lindo espelho ao qual fazia todas as manhãs a mesma pergunta:

__ Diga-me, espelho meu, há alguém no mundo mais bela do que eu?

E o espelho sempre respondia:

__ Não, rainha, ninguém é mais bela do que tu.

Então ficava satisfeita, pois sabia estar o espelho dizendo a verdade.


Imagem 01 - Acervo: Ludus Schola


Porém, Branca de Neve crescia cada dia mais bonita e certa vez, ao fazer a rainha a mesma pergunta:

__ Diga-me, espelho meu, há alguém no mundo mais bela do que eu?

O espelho retrucou:

__ Rainha, és a mais bela do lugar, mas de Branca de Neve não podes ganhar.

Diante disso a rainha empalideceu para depois tornar-se verde de inveja. Cada vez que pousava os olhos na menina, tinha-lhe um ódio maior. Não tendo mais sossego, acabou por chamar um escudeiro dizendo-lhe: Leva a menina para a floresta, não quero mais vê-la. Mata-a e, como prova das ordens cumpridas, traze-me o coração e o fígado da criatura.

O escudeiro obedeceu, mas chegando no escuro da floresta não teve ânimo e deixou-a fugir com a condição de nunca mais voltar. Flechou um veadinho que saltava por perto, tirando-lhe o coração e o fígado e os trouxe de volta à rainha.

Enquanto isso, a pobre meninazinha corria pela floresta, com medo de cada galho mexendo e de cada animalzinho saltando pelos atalhos. Feriu-se nas pedras do caminho e nos espinhos dos arbustos, mas corria sempre, enquanto ainda tinha fôlego. Ao anoitecer chegou a uma pequena casa.


Imagem 02 - Acervo: Ludus Schola


Tudo era diminuto, mas tão limpo e tão cuidado de fazer gosto. A mesma estava posta com uma toalha branca e sete pratinhos. Cada prato tinha ao lado uma faca, um garfo e uma colherzinha. Sete copinhos alinhavam-se em frente. Junto à parede, sete caminhas com os lençóis imaculados. Como estivesse com muita fome e sede, Branca de Neve comeu da cada pratinho um bocado e bebeu de cada copinho um gole de vinho. Pois não queria prejudicar a um só. Depois, como estivesse tão cansada, quis deitar-se, mas nenhuma caminha servia; uma era comprida demais, outra curta demais, finalmente a sétima serviu e nessa deitou-se e adormeceu.

Ao escurecer chegaram os donos da casa. Eram os sete anões que escavavam minério nas montanhas. Acenderam a sete luzinhas e logo notaram uma presença estranha em casa. Falou o primeiro:


Imagem 03 - Acervo: Ludus Schola


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__ “Quem se sentou no meu banquinho?” O segundo: __ “Quem comeu do meu pratinho?” O terceiro: __ “Quem tirou o meu pãozinho?” O quarto: __ “Quem mexeu na minha comida?” O quinto: __ “Quem usou o meu garfinho?” O sexto: __ “Quem cortou com minha faquinha?” O sétimo: __ “Quem bebeu no meu copinho?”

Então o primeiro observou a cama amassada: __ “Quem deitou em minha caminha?” gritou, e os outros achegaram-se exclamando: __ “Na minha também alguém se deitou.” Então o sétimo, vendo Branca de Neve, disse: __ Está aqui, está aqui! e todos trouxeram suas luzinhas e vieram contemplar a linda menina.

__ Meu Deus! Meu Deus! Que menina bonita! E alegraram-se muito e não a acordaram; deixaram-na dormir. O sétimo anão passou a dormir uma hora em cada caminha e assim transcorreu a noite.


Imagem 04 - Acervo: Ludus Schola


Ao amanhecer, Branca de Neve acordou, assustando-se ao ver os anões. Estes, porém, foram amáveis e cheios de atenções. Perguntaram-lhe como se chamava.

__ Chamo-me Branca de Neve, respondeu ela.

__ Como vieste à nossa casa?

Contou então como a madrasta, querendo vê-la morta, a mandara com o escudeiro para a floresta, mas este a deixara partir. Correra o dia todo até chegar à casa deles.

E os anões disseram:

__ Queres tomar conta da nossa casa? Cozinhar, lavar, costurar e manter tudo em ordem e limpo? Podes ficar e nada te faltará.

__ Sim, disse Branca de Neve. Fico.

De manhã iam os anões para as montanhas à procura de ouro, voltando pela tardinha para encontrar a comida já pronta. Durante o dia a menina estava sempre sozinha, por isso os anões a advertiram: __ Toma cuidado com a tua madrasta. Acabará sabendo que estás aqui. Nunca deixes entrar ninguém.


Imagem 05 - Acervo: Ludus Schola



A rainha, entretanto, julgando-se agora a mais bonita tornou a perguntar ao espelho:

__ Diga-me, espelho meu, há alguém no mundo mais bela do que eu?

E o espelho respondeu:

__ Não aqui, rainha minha, mas além dos morros vive Branca de Neve, a linda meninazinha.

Novamente acabrunhada porquanto sabia que o espelho não mentia, começou a imaginar um modo de matá-la, pois, de outra forma, não encontraria uma hora de sossego. Depois de muito pensar, pintou o rosto, disfarçou-se de pobre vendedora, palmilhou os sete morros que levavam à casa dos sete anões e lá foi oferecer sua mercadoria.


Imagem 06 - Acervo: Ludus Schola


__ Bela menina, não precisa de um pente? Tenho lindos colares, pulseiras, brincos de ouro.

Branca de neve olhou pela janela e exclamou:

__ Muito bom dia, boa mulher, que tendes para vender?

__ Mercadoria boa e bonita, respondeu ela, prendedores para cabelos de todas as cores, e mostrou um de seda trançada.

Essa simpática velhinha posso com toda a certeza deixar entrar, pensou a moca, e tirando o ferrolho da porta comprou diversos enfeites da vendedora.

__ Minha filha, como estás mal arrumada! Vou colocar-te atacadores mais bonitos.

Branca de Neve sem de nada desconfiar, postou-se em frente da velha e essa enfiou-lhe atacadores novos no corpete. Fez tudo isso com rapidez e apertou tanto a pobre moca que Branca de Neve ficou sem ar e caiu desmaiada.


Imagem 07 - Acervo: Ludus Schola


__ Pois agora já foste a mais bonita, disse a rainha má, e fugiu satisfeita.

Certo tempo depois voltaram os sete anões do trabalho para casa. E como se assustaram ao ver a sua querida Branca de Neve caída no solo, sem se mexer nem respirar! Estava como morta. Levantaram-na do chão e viram que estava com a cintura muito amarrada. Cortaram depressa os cordões e ela, devagar, começou a respirar um pouco. Foi voltando a si e se refez finalmente.

Quando os anõezinhos ouviram o que acontecera, disseram:

__ A velha vendedora não pode ter sido outra, senão aquela rainha sem coração. Toma cuidado e não deixes entrar ninguém, quando não estivermos aqui!

A rainha, ao chegar ao palácio, dirigiu-se logo ao espelho e perguntou:

__ Diga-me, espelho meu, há alguém no mundo mais bela do que eu?

E o espelho respondeu:

__ Sim, bela rainha, agora há além dos sete morros, alguém mil vezes mais bela do que tu, é Branca de Neve.


Imagem 08 - Acervo: Ludus Schola


Ao ouvir isso, a rainha ficou possessa e pensou em usar dessa vez os conhecimentos mágicos que possuía para afastar definitivamente a bela menina como sua rival. Trancou-se num quartinho escuro onde ninguém podia entrar e preparou uma maçã envenenada. Por fora tinha uma linda aparência, lustrosa e corada, porém quem dela provasse cairia logo morto.

Então disfarçou-se de camponesa, encheu uma cesta de maçãs e pôs-se a caminho da casa dos anões. Bateu à porta e Branca de Neve pôs a cabeça à janela dizendo:

__ Não posso deixar entrar ninguém, os sete anões mo proibiram.

__ Não faz mal nenhum, não vou entrar, quero apenas vender minhas maçãs. E estendeu uma a Branca de Neve. __ Essa é de presente.

__ Não, disse Branca de Neve, não posso aceitar nada.

__ Estás com medo de seres envenenada? disse a velha. Veja, vou comer um pedaço para não teres receio. A maçã estava preparada com tal arte que só a parte colorida continha veneno.

Branca de Neve olhou a linda maçã e sentiu a boca cheia d’água.

Vendo a camponesa comendo, não resistiu mais e também deu uma dentada na sua metade. Imediatamente caiu para trás e ficou estendida. A rainha contemplou-a e soltou uma gargalhada:

__ Branca como neve, corada como sangue, cabelos pretos como ébano! Ah! ah! ah!, dessa vez os anões nada poderão fazer por ti.

E ao chegar a casa perguntou ao espelho:

__ Diga-me, espelho meu, há alguém no mundo mais bela do que eu?

E a resposta desejada veio afinal:

__ Bela rainha, ninguém é mais bela do que tu.

E finalmente pôde adormecer em paz, se é possível dormir em paz com a consciência culpada.

Ao voltarem para casa, os anõezinhos encontraram Branca de Neve abandonada no chão e nem a mais leve respiração lhe saía dos lábios, pois estava morta. Levaram-na para dentro, friccionaram seus pés e mãos, pentearam-lhe os cabelos, lavaram-na com água e vinho, mas nada encontraram e nem ela se reanimou.


Imagem 09 - Acervo: Ludus Schola


Tinha o aspecto tão saudável e rosado que não tiveram a coragem de sepultá-la. Fizeram-lhe então um caixão de vidro. Escreveram com letras douradas tratar-se de uma princesa e levaram o caixão ao alto de um dos sete morros. Um dos anões sempre ficava como vigia e os animais da floresta vieram chorá-la, primeiro uma coruja, depois um corvo e, por fim, uma pomba. Muito, muito tempo permaneceu Branca de Neve no caixão, sempre fresca e linda, branca como a neve, corada como o sangue e com cabelos negros como o ébano.

Aconteceu então um dia, estando um príncipe a caçar, pedir pousada por uma noite, na casa dos anões. Viu o esquife e pediu para levá-lo consigo. Mas os anões responderam:

__ Não o vendemos por preço nenhum.

__ Então deem-mo de presente, pois apaixonei-me por Branca de Neve e quero guardá-la e venerá-la para sempre.

Apiedados, os bons anõezinhos concordaram. O príncipe fez com que seus servidores o pusessem aos ombros, mas em meio do caminho, um deles tropeçou numa raiz e o tranco fez soltar-se o pedaço de maçã entalado na garganta de Branca de Neve.


Imagem 10 - Acervo: Ludus Schola


Logo após, ela abriu os olhos, e sentou-se exclamando: __ Meu Deus, onde estou?

O príncipe, cheio de alegria, respondeu-lhe: __ Você está comigo, e contou-lhe o que havia acontecido. Depois disse-lhe: __ Eu gosto muitíssimo de você; tu és tudo para mim no mundo; venha comigo ao castelo de meu pai... você deve ser minha esposa.

Felicíssima, Branca de Neve aceitou e foi com o príncipe ao castelo do rei, sendo o seu casamento realizado com grandes pompas. Mas para o casamento também fora convidada a cruel madrasta de Branca de Neve. Assim que a malvada pôs os seus mais belos vestidos, postou-se diante do espelho e disse:

Espelhinho, espelhinho meu,

Há no mundo mulher mais bela que eu?

O espelho respondeu:

Senhora rainha, és a mais bela aqui,

Mas a jovem rainha é mil vezes mais bela que tu!

Ao ouvir isso, a mulher empalideceu de raiva. Sua vontade era nem ir à festa.

Mas a fúria com que estava fez com que ela fosse ao casamento. Ela queria saber quem era essa mulher mil vezes mais bela. Quando entrou no salão feericamente iluminado e viu a noiva toda vestida de branco, foi forçada a reconhecer que o espelho tinha toda a razão.

Mas, aproximando-se para ver melhor a noiva, qual não foi o seu espanto ao reconhecer nela a sua enteada Branca de Neve.

A cruel madrasta ficou muda e paralisada de espanto.


Imagem 11 - Acervo: Ludus Schola


Por fim, recobrando-se, deu meia volta e saiu correndo do castelo e consta que caiu num precipício, morrendo da queda, pois nunca mais ninguém a viu por aqueles lados.

Branca de Neve e o príncipe viveram muitos e muitos anos de feliz casamento, e muitos foram os filhos que tiveram.

  

 


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