Cavaleiros medievais


A mais importante organização militar da Idade Média – a cavalaria – desenvolveu-se a partir do século IX, como expressão da própria maneira pela qual se estruturava a sociedade feudal. 

Segundo as leis não escritas daqueles tempos, só os primogênitos dos senhores de terra tinham direito integral à herança dos bens paternos. Desse modo, os demais filhos eram nobres sem fortuna sem meios de consegui-la pela atividade econômica, não só porque negociar era considerado atividade indigna de um barão, mas também porque a Igreja condenava a obtenção de lucros através do comércio. 


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Que meios restavam então aos indivíduos que aspirassem a conquistar prestígio, poder e fortuna? Os empreendimentos militares ou a pura e simples aventura. Assim, começaram a aparecer, em diversos países da Europa, grupos de homens armados e turbulentos, que volta e meia espalhavam o terror entre as populações camponesas, saqueavam os viajantes e assolavam aldeias e vilarejos. Em suma, eram bandidos como quaisquer outros. Com uma diferença: tinham ascendência nobre. Pois, o sonho de todo garoto na Idade Média era ser cavaleiro ou monge.


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Mais tarde, as coisas mudaram bastante. Em primeiro lugar, a partir do século XI a cavalaria ficou organizada segundo normas mais precisas e os cavaleiros, hierarquizados, sendo utilizados brasões como forma para sua classificação e reconhecimento.

A responsável por essa organização foi a Igreja – a mais poderosa instituição medieval –, que soube dirigir as atividades dos cavaleiros no rumo dos princípios que defendia. Assim, distribuídos em mais de 200 ordens militares, os cavaleiros deveriam – ao menos teoricamente – fazer justiça, defender os fracos e propagar a fé cristã. A atribuição dessas tarefas e a definição de um código de honra contribuíram para moralizar os costumes, moderar o despotismo e forjar um novo estilo de vida.


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Ser cavaleiro era um privilégio: precisava-se ter cavalos apropriados ao combate – que atingiam preços absurdos – e armamento, o qual era igualmente caro numa sociedade agrícola e artesanal. E tempo suficiente para dedicar-se à aprendizagem e às guerras constantes. De tal modo, só poderiam ter acesso à condição de cavaleiro aqueles que tivessem outros a sustentá-los. Forma-se então uma casta militar hereditária, situada na estrutura social acima dos homens comuns. Cada cavaleiro possuía seu brasão: cruzes de vários formatos, castelos, torres, árvores e animais.


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O preparo de um cavaleiro começava aos 7 ou 8 anos, idade em que o pai do aspirante o colocava a serviço de outro senhor, como pajem ou mancebo, a fim de que pudesse aprender boas maneiras e adestrar-se no manejo de armas. "Aos 14 anos tornava-se escudeiro numa cerimônia em que se lhe cingia a espada e na qual recebia as esporas de prata" (HERCULANO, Alexandre). A partir de então acompanhava seu senhor nas campanhas militares. Finalmente, aos 21 anos, mediante um ritual de caráter religioso, o jovem ingressava na ordem da cavalaria.

A cerimônia desenrolava-se assim: primeiro, o moço passava a noite em vigília junto ao altar. Depois, banhava-se, recebia uma camisa de linho, símbolo de pureza, e uma túnica vermelha, representando o sangue que verteria em defesa de Deus. Em seguida, confessava, comungava e ouvia um sermão, durante a missa em sua honra. Ocorria então o momento culminante da cerimônia; o jovem aproximava-se do altar, levando a espada presa ao pescoço para que o sacerdote a abençoasse. Ajoelhava-se ante seu padrinho – o senhor feudal a quem servira – e prestava o devido juramento. O senhor, por sua vez, dava-lhe três golpes no ombro com a espada, simbolizando as últimas ofensas que haveria de admitir, e dizia: “Em nome de Deus, de São Miguel e de São Jorge, eu vos armo cavaleiro. Sede valente, leal e generoso.” Por fim, no pátio do castelo, o cavaleiro recém-sagrado saltava sobre seu cavalo sem tocar os estribos e, sempre galopando, realizava com sua espada e sua lança os passes de arma que demonstravam sua destreza.

Muito pouco se cuidava da cultura do espírito do cavaleiro. Ela reduzia-se a rudimentos de leitura e escrita e explicações sobre os fundamentos da religião. Cuidava-se mesmo era da educação física, do adestramento destinado a fazê-lo um bom guerreiro. Na segunda metade do século XI, a Igreja acrescentou uma preparação de ordem espiritual. "É por isso que a cerimônia de sagração do cavaleiro era como que um segundo batismo" (HERCULANO, Alexandre).


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As Cruzadas serviram para alimentar o prestígio dos cavaleiros e reforçar o sentido religioso de sua atividade. A pregação das Cruzadas pelo próprio Papa começou no Concílio deClermont, em 1095. Essas expedições, com o fim declarado de libertar o Santo Sepulcro do domínio muçulmano, traduziram principalmente a profunda unidade imprimida pelo cristianismo à civilização europeia durante o feudalismo. E, embora não significassem triunfos militares de envergadura, exerceram grande influência na Europa Ocidental, cujos horizontes culturais aumentaram em contato com o mundo islâmico.



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Os livros de cavalaria
 

Os livros de cavalaria constituíram o gênero literário medieval por excelência. Narrativas em prosa de grandes aventuras de cavaleiros, exaltando a vida das armas e os ideais correspondentes, derivavam das canções de gesta, segundo um processo de evolução literária formal. Até os personagens eram os mesmos: Tristão, Lancelote, os Cavaleiros da Távola Redonda.


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Vários conjuntos lendários constituem a temática dessa literatura

surgida principalmente na França:

1. ciclo bretão ou do Rei Artur (Tristão, Lancelote).

2. ciclo carolíngio ou de Carlos Magno (Canção de Rolando).

3. ciclo clássico (Tróia).

4. ciclo das Cruzadas.

5. ciclo espanhol dos amadises (Amadis de Gaula).

6. ciclo dos palmeirins (Palmeirim da Inglaterra).

Esse material épico punha em relevo a força dos heróis, mesclada de elementos fantásticos, sobrenaturais e motivos amorosos.

No Renascimento, o livro de cavalaria era a forma mais popular de literatura, com adeptos em todas as camadas sociais. Criou-se em torno do assunto verdadeira mania, cujos aspectos negativos foram satirizados por Cervantes em seu “Dom Quixote”.


Decadência da cavalaria

 

Com a queda do feudalismo – e também como uma de suas causas – criaram-se os exércitos profissionais, oferecendo-se aos aldeões em geral a possibilidade de se tornarem soldados mercenários. Outro motivo da decadência da cavalaria foi a adoção de novos métodos de guerra, que fizeram os cavaleiros menos necessários como classe militar. Aparece a pólvora, desalojando a lança e a espada, apesar da resistência dos senhores feudais, que viam seus peões capazes de lutar contra eles levar vantagem.


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Na Idade Moderna, à medida que se aperfeiçoam as armas de fogo, a cavalaria cede lugar à infantaria como vanguarda nas formações de combate. Entretanto, Napoleão empregou-a em suas guerras, utilizando-a em missões de exploração e reconhecimento, com grande sucesso. Daí, passou a ser usada como arma de surpresa, com poder de choque e efeito moral. As tropas de cavalaria usavam armas brancas – sabres, espadas, punhais só excepcionalmente 9fereciam combate a pé, lutando, nesses casos, com armas de fogo.


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 REFERÊNCIA: https://aeaveiro.pt/biblioteca/view/488/O%20bobo%20-%20Alexandre%20Herculano.pdf




 

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